Resumo: Na obra de Carl Gustav Jung, a elegância não se configura como um conceito técnico, estético ou como um arquétipo específico. Ainda assim, o tema encontra-se de forma implícita e transversal em seus escritos, podendo ser compreendido como expressão da totalidade e da harmonia psíquica, intimamente relacionada ao processo de individuação. Nesse sentido, a elegância articula-se com conceitos fundamentais da psicologia analítica, tais como individuação, persona, sombra, e Self, bem como com o funcionamento dos tipos e funções psicológicas. Este ensaio propõe-se a ampliar a reflexão sobre a elegância no pensar, no sentir e no agir, tal como se manifesta na vida cotidiana, estabelecendo conexões com a teoria junguiana.
Segundo o Dicionário Aurélio (Cfe. FERREIRA, 2010, p. 737), a palavra elegância deriva do latim eligere e refere-se à capacidade de realizar escolhas criteriosas que se expressam em harmonia e proporção, seja na aparência, no vestuário, no comportamento ou na linguagem. Tal compreensão encontra ressonância em provérbios e expressões do senso comum — como “menos é mais”, “quem é, não precisa parecer” ou “elegância é quando o interior é tão belo quanto o exterior” — amplamente difundidos pela cultura popular e vivenciados no âmbito do inconsciente pessoal e coletivo.
A elegância no pensar costuma ser associada à clareza, à sabedoria e à suspensão de julgamentos precipitados. No âmbito do sentir, manifesta-se por meio de qualidades como empatia, respeito, gratidão, serenidade e alteridade. Já a elegância no agir relaciona-se ao bom senso, à gentileza, à coerência, ao compromisso e à pontualidade. Tais atributos são reconhecidos, no senso comum, como fundamentais para a construção de relações sociais harmoniosas e podem ser compreendidos, à luz da psicologia analítica, como expressões de um psiquismo em processo de integração.
O conceito de elegância transcende a mera aparência, sendo explorado em diversas obras literárias e científicas que destacam a harmonia interna e o mundo exterior.
No romance A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, a narrativa situa a elegância em um prédio parisiense, onde a crise adolescente e a melancolia madura se entrelaçam. A obra amplia a discussão sobre a harmonia entre o interior e o exterior — abrangendo justiça, beleza, arte e amor — e reflete sobre o tempo e a eternidade: “Afinal, sempre temos a ilusão de que controlamos o que acontece; nada nos parece definitivo” (BARBERY, 2008, p. 348).
De modo complementar, a obra A Força da Elegância (Cfe. GONTIJO, 2025) une neurociência e a elegância que vem de dentro. O livro transcende a etiqueta tradicional, valorizando a coerência entre o discurso e a ação, a comunicação não verbal e a inteligência emocional. Na psicologia, Joseph C. Zinker, em A Busca da Elegância em Psicoterapia, evidenciou a criatividade como um atributo humano fundamental. O autor defendeu que a relação terapêutica deve ser um encontro criativo: “Todo encontro terapêutico é potencialmente um trabalho de arte” (ZINKER, 2001, p. 306).
A expressão criativa é uma possibilidade de trabalho na psicologia analítica, onde a criatividade é considerada um dos cinco instintos naturais do indivíduo, assim como a fome, a sexualidade, a atividade e a reflexão (Cf. JUNG, 2013b, § 246). Jung a via como possibilidade de voltar-se para dentro, reconectar-se com o sagrado e promover o encontro com o Si-mesmo (Selbst), o arquétipo da totalidade e da realização.
Ainda que a palavra elegância não figure no vocabulário técnico de Jung, sua psicologia analítica oferece o suporte ideal para redefini-la como uma expressão da harmonia interior. Se a individuação é o processo de “tornar-se um consigo mesmo” (JUNG, 2013c, § 227), a elegância pode ser vista como o resultado estético e ético dessa integração. Ela surge quando o indivíduo alinha seu interior com sua expressão externa, despojando-se das exigências rígidas da persona para dar lugar ao seu ser autêntico (Cfe. JUNG, 2015, § 267).
No entanto, essa elegância do ser exige o reconhecimento da sombra.
Longe de ser um adereço superficial, o autoconhecimento demanda o resgate de partes ocultas da psique, um ato que, embora enfrente considerável resistência (Cfe. JUNG, 2013a, § 14), é o que confere profundidade ao indivíduo. Finalmente, ao orbitar o Self, o indivíduo compreende que a verdadeira distinção não reside na falta de defeitos. Nas palavras de Jung: “Não há luz sem sombra, nem totalidade anímica sem imperfeição” (JUNG, 2012, § 208). A elegância, sob este prisma, é a beleza da completude: uma essência que não busca a perfeição, mas a coragem de ser inteiro.
A inter-relação entre a tríade pensar, sentir e agir oferece uma via fundamental para a compreensão do funcionamento humano. Embora exploradas aqui separadamente para fins didáticos, é imperativo lembrar que o ser humano é um ser integral; nada na psique opera de forma isolada ou reduzida a classificações estáticas.
Nesse contexto, a elegância no pensar manifesta-se através da consciência e da clareza, exigindo o esforço da compreensão em detrimento da fixação em preconceitos. Tal tarefa não é simples, pois o desconhecido frequentemente nos conduz a caminhos sombrios. Como observou Jung, existe uma resistência inerente ao esforço intelectual: “Pensar é difícil, por isso a maioria é quem decide” (JUNG, 2013e, § 653). Quando o julgamento precipitado ocupa o lugar da empatia, perde-se a oportunidade de validar a perspectiva do outro. Afinal, a apreensão da realidade não é exclusividade da razão: “Não pretendemos conhecer o mundo apenas com o intelecto; ele pode ser compreendido tão bem igualmente pelo sentimento” (JUNG, 2013d, § 929).
Essa harmonia entre o pensar, sentir e agir encontra ressonância na mitologia, que povoa o imaginário com arquétipos da elegância em suas múltiplas facetas. Figuras como Afrodite, Atena e as Graças (Aglaia, Eufrosina e Talia) personificam a harmonia entre beleza, sabedoria e encanto. No universo masculino, Apolo surge como a personificação da ordem e da harmonia clássica, enquanto Hermes, com sua diplomacia e eloquência, representa a sofisticação da agilidade mental. Mesmo o mito de Narciso serve de alerta, ilustrando a elegância que se perde na vaidade estéril da aparência física. Esses exemplos arquetípicos reiteram que a verdadeira elegância reside além da perfeição estética.
Para complementar, essa elegância que transcende a imagem é corroborada pela filosofia e pela literatura, manifestando-se através da ética, da simplicidade e da sabedoria no agir.
Machado de Assis, em Contos Fluminenses, já distinguia com precisão o elegante do apenas enfeitado, oferecendo uma reflexão perene sobre a transitoriedade do externo: “a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca“. No mesmo sentido, a escrita de Clarice Lispector, especialmente em Um Sopro de Vida, mergulha na busca pela identidade profunda. Através da personagem Ângela Pralini, Clarice ampliou o debate sobre uma beleza que nasce da investigação do ser, sugerindo que a elegância mais refinada é aquela que emana da fidelidade à própria essência.
A elegância no sentir, por sua vez, compreende a coragem de reconhecer tanto luzes quanto sombras. Olhar para dentro implica perceber que a totalidade humana não é composta apenas de qualidades; o que reprimimos — traumas, medos, impulsos ou talentos ocultos — constitui a nossa sombra. A máxima “conhecer a própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas” resume com precisão as discussões de Jung sobre a projeção (Cfe. JUNG, 1987, p. 83-107). Em Aion, Jung (Cfe. JUNG, 2013a, § 17) amplia o impacto desse fenômeno: “A consequência da projeção é um isolamento em relação ao mundo exterior, pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória”.
Nesse sentido, a reprovação rígida de si mesmo ou do próximo cria um obstáculo intransponível à mudança. A elegância emocional reside na aceitação assertiva das falhas como prelúdio para a transformação: “Não se pode mudar aquilo que anteriormente não se aceitou. A condenação moral não liberta, ela oprime” (JUNG, 2012a, § 519). Assim, a verdadeira elegância não consiste em perder-se no outro ou em julgamentos, mas em estabelecer uma harmonia interna por meio do processo de individuação.
Essa complexidade do sentir e as diferentes formas de compreender o mundo manifestam-se também através da arte. Pela música, a elegância ganha contornos variados: em “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ela transparece na admiração silenciosa e na distância melancólica diante de uma beleza inalcançável. Obras como “Linda Demais”, do Roupa Nova, ou “Coisa Mais Linda”, de Caetano Veloso, celebram a estética e a presença feminina sob o olhar do encantamento.
Em contrapartida, a canção “Dor Elegante”, de Itamar Assumpção e Paulo Leminski (popularizada por Chico César), oferece uma das mais profundas definições desse conceito: a elegância ao lidar com o sofrimento. Ao descrever que “um homem com uma dor / é muito mais elegante”, a letra sugere que a postura ética diante da vulnerabilidade confere dignidade ao indivíduo. Explorar a elegância através da música, mesmo em composições de décadas passadas, permite-nos compreender o espírito da época (Zeitgeist) e observar como a busca pela harmonia e pela essência se reconfigura continuamente na alma humana.
Por fim, a elegância no agir é marcada pela coerência ética, onde a prática e o discurso se fundem em atitudes de humildade e humanidade, despojadas de máscaras sociais excessivas.
Jung sintetizou essa postura ao afirmar que “O encontro entre duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas: se houver uma reação, ambas se transformam” (JUNG, 2013c, §163). Assim, fica evidente que conceitos pré-concebidos podem obscurecer a relação humana.
No campo das relações, essa elegância manifesta-se no que Rubem Alves denominou escutatória — a arte de ouvir profundamente, que se sobrepõe à vaidade da oratória: “Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito“ (ALVES, 2014, p. 21). Essa escuta exige o silêncio da alma, como sugerido por Alberto Caeiro e parafraseado por Alves (1999, p. 65), sendo o fundamento para um diálogo assertivo que renuncia ao desejo de controlar o outro.
No plano espiritual, a elegância transcende o comportamento social para tornar-se uma postura interior de respeito e dedicação. Longe da ostentação física ou religiosa, essa dignidade reflete-se na valorização da beleza interior, ecoando preceitos bíblicos que a centralizam em um espírito calmo e gentil (1 Pedro 3:3-4).
Embora essas dimensões da elegância — pensar, sentir e agir — se entrelacem teoricamente, na prática elas frequentemente colidem com os padrões sociais, gerando angústia e dificultando a integração do ser. Para compreender essa dinâmica, Jung propôs em sua obra Tipos Psicológicos as atitudes (extroversão e introversão) e as funções orientadoras (pensamento, sentimento, sensação e intuição). No Capítulo 10 de sua obra (JUNG, 2013d, § 621-740), ele detalha como essas funções operam na consciência e no inconsciente. A elegância psíquica, portanto, não reside em uma classificação estática, mas no esforço de integrar a função principal às funções auxiliares e, sobretudo, à função inferior, promovendo o entendimento da psique em sua totalidade.
Na Psicologia Analítica, uma forma privilegiada de observar a manifestação dessas virtudes é por meio dos Contos de Fadas. Nessas narrativas, a nobreza de caráter e a elegância de alma são personificadas em figuras como Cinderela, que mantém sua dignidade e doçura mesmo sob opressão. Da mesma forma, o conto A Bela e a Fera reforça que a verdadeira sofisticação reside na generosidade e na capacidade de enxergar além das aparências, reafirmando que a elegância é, em última análise, uma conquista da alma em seu processo de transformação. Percebe-se que a elegância é um conceito em constante ampliação, que se recusa a ser aprisionado por um padrão único ou superficial. Ela sugere um refinamento que exige múltiplos cuidados, começando pelo reconhecimento de que o aspecto físico — o nosso corpo — é, em última instância, o templo da nossa alma.
No entanto, a manifestação mais elevada da elegância reside na simplicidade, uma virtude que Jung considerava um dos maiores desafios do espírito humano. No Volume 13 das Obras Completas, ao comentar sobre O Segredo da Flor de Ouro, Jung observa a tendência da consciência em interferir nos processos naturais da psique: “Seria bastante simples, se ao menos a simplicidade não fosse a mais difícil de todas as coisas” (JUNG, 2011, § 20). Essa disciplina da simplicidade é necessária para que a elegância não se torne um artifício do ego, mas um crescimento orgânico da totalidade.
A verdadeira elegância, portanto, afasta-se do desejo de controle e da ostentação de poder, que são frequentemente as sombras de uma alma fragmentada. Como nos recorda Jung: “Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro” (JUNG, 2020, § 78).
Em última análise, a elegância é o resultado de um processo de individuação. O autoconhecimento é a possibilidade de conectar com a verdadeira essência e de assumir o protagonismo da própria vida.
Assim, ser elegante é o ato de permitir que a própria essência floresça sem as correções excessivas da persona social. É a arte de deixar crescer em harmonia os processos psíquicos, integrando sombra e luz em uma existência que se manifesta com a naturalidade de quem encontrou o próprio Self, simbolizada pela beleza natural, crescimento a partir das profundezas e serenidade da vitória-régia, conforme ilustrado na fotografia 1. A elegância, em sua forma mais pura, é o brilho externo de uma alma que aprendeu a amar a própria verdade.
Claci Maria Strieder – Membro Analista IJEP
Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP
Fontes de Consulta:
ALVES, R. O amor que acende a lua. 13. ed. Campinas, SP: Papirus, 1999.
________ Ostra feliz não faz pérola. 2. Ed. São Paulo: Planeta, 2014.
ASSIS, M. Contos fluminenses. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
BARBERY, M. A elegância do ouriço. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010.
GONTIJO, C. A força da elegância: O que a neurociência revela sobre a excelência no comportamento humano. Belo Horizonte, Reflexão, 2025.
JUNG, C. G. Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.
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__________ A Prática da psicoterapia. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013c.
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__________ Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. 6 ed. Petrópolis, RJ, Vozes: 2013e.
LISPECTOR, C. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2020 (Edição Comemorativa).
STRIEDER, C.M. Vitória-régia. Cáceres-MT, 2017. Fotografia produzida pela autora.
VELOSO, C. Coisa mais linda. Álbum Uns, Polygram, 1983.
ZINKER, J. C. A busca da elegância em psicoterapia: uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001.
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Fotografia – Vitória-régia – Fonte: a autora.

