Resumo: Este ensaio aborda a sociedade contemporânea a partir do conceito de “sociedade do cansaço”, de Byung-Chul Han, marcada pelo excesso de desempenho e pela perda da interioridade. Analisa o impacto desse cenário no aumento dos adoecimentos psíquicos e na ausência de uma vida contemplativa. Nesse contexto, apresenta-se a direção espiritual como prática de escuta e acompanhamento individual. Além disso, apresenta a análise junguiana como processo dialético de autoconhecimento e individuação.
O ensaio analisa a sociedade do cansaço, marcada pelo excesso de desempenho, e seus impactos na perda da vida interior. Propõe a direção espiritual e a análise junguiana como caminhos de escuta, autoconhecimento e individuação.
Muita pressa, excesso, não saber por onde ir, que caminhos trilhar, confusão mental, falta de sentido e sensação de vazio. É assim que muitas pessoas vivem, religiosas ou não. Esses comportamentos refletem um tipo de vida contemporâneo, que o filósofo coreano Byung-Chul Han chama de sociedade do cansaço. Para ele, o mundo contemporâneo é marcado pela confusão mentall e não existem barreiras imunológicas contra as doenças neuronais nesse tipo de vida. “Na sociedade do desempenho, o depressivo é um animal laborans – um animal trabalhador – que explora a si mesmo, sendo agressor e vítima ao mesmo tempo.” (HAN, 2015, p. 7).
Nessa sociedade adoecida pelo excesso de trabalho, Sociedade do Cansaço, livro de Byung-Chul Han, existe pouco espaço para a interioridade e para a vida contemplativa. É uma sociedade onde impera as multitarefas, por isso é muito difícil parar e ver a si mesmo.
A partir da leitura de Nietzsche, o filósofo coreano afirma que a vida contemplativa pressupõe uma pedagogia do ver. “Aprender a ver significa capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa”. (HAN, 2015, p. 11). Esse animal trabalhador está disposto a dar um sim a tudo, sempre voltado para fora, com uma capacidade mínima de ver, de sentir e de pausar. “O mundo atual é pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. A máquina não pode fazer pausas.” (HAN, 2015, pp. 11-12).
A falta de pausas, além de impedir a interioridade, contribui para o afastamento da vida contemplativa.
Será que houve um tempo onde ter uma vida com mais pausas, com silêncio era algo mais recorrente? Essa era a vida dos filósofos. “A atividade contemplativa é uma inatividade, um repouso contemplativo, um ócio (scholé), já que, em oposição à vida ativa (biós politikós), não age, ou seja, não tem sua finalidade fora de si mesma.” (HAN, 2023, p. 64).
Hoje, impõe-se em todo lugar a forma de vida consumista, na qual toda necessidade deve ser satisfeita imediatamente. Não temos mais a paciência para a espera, na qual algo pode lentamente amadurecer. O que conta é apenas o efeito de curto prazo, o êxito rápido. Ações se encurtam em reações. Experiências se diluem em vivências. Sentimentos se empobrecem em emoções e afetos. Não temos acesso à realidade, que só se revela a uma atenção contemplativa. (HAN, 2023, p. 64).
A contemplação é oposta à produção. Ela se relaciona com o indisponível como algo já dado. O pensar está sempre recepcionando. A dimensão da dádiva no pensar [Denken] faz dele um agradecer [Danken]. No pensar como agradecer, a vontade se resigna [abdanken] inteiramente: “O espírito nobre paciente seria um puro repousar-em-si de toda vontade que, recusando o querer, entregou-se àquilo que não é uma vontade. O espírito nobre seria a essência do pensar e, assim, do agradecer (Heidegger) ”.(HAN, 2023, p. 43).
O mundo moderno era o mundo da máquina, da fábrica. Uma realidade muito bem retratada por Charles Chaplin no filme Tempos Modernos.
Na atualidade, no mundo contemporâneo, são as redes sociais, é a inteligência artificial, tudo isso é muito mais rápido e mais veloz que os motores da Revolução Industrial. Nessa sociedade da informação e do cansaço, falta espaço e tempo para olhar e ver os conteúdos interiores, o que só aumenta as doenças neuronais. “… os adoecimentos neuronais do século XXI seguem a dialética da positividade, cuja violência resulta de superprodução, super desempenho ou supercomunicação, não sendo mais ‘viral’.” (HAN, 2015, p. 6).
O adoecimento no século XXI, segundo Byung-Chul Han não advém do vírus e nem das bactérias, por isso não existem barreiras imunológicas para esse tipo de enfermidades e transtornos. Todos nós estamos sujeitos a isso, somos marcados pela positividade.
Se não existem barreiras imunológicas que impeçam o super desempenho, a supercomunicação, o que resta é o super cansaço e o super esgotamento.
“De fato, o que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão de desempenho. Desse modo, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas, antes, a alma consumida.” (HAN, 2015, p. 7).
Na impossibilidade do biológico proteger imunologicamente os indivíduos, multiplicam-se as medicações psiquiátricas, que ajudam a amenizar os sintomas, mas sem nenhum poder de tocar a alma. Assim sendo, eu proponho dois caminhos, duas alternativas para adentrar a alma. Os dois caminhos podem ser percebidos por um viés contemplativo: a direção espiritual e a prática da análise junguiana.
A Direção Espiritual
Irei iniciar com Thomas Merton, monge trapista, místico e escritor. Para T. Merton, a direção espiritual não pode ser padronizada por “receitas amargas” que indicam um único caminho para viver a espiritualidade, mas o “que adianta a religião sem direção espiritual?”. Vale ressaltar que a direção espiritual nasce no contexto monástico, com os padres do deserto. “A direção espiritual era, portanto, um dos meios essenciais da perfeição monástica.” (MERTON, 2022, p. 18).
Essa descrição da direção espiritual põe em relevo algumas diferenças importantes existentes entre direção e conselhos ou direção e psicoterapia. A direção espiritual não é apenas o efeito cumulativo de exortações e admoestações de que todos nós necessitamos de maneira a vivermos à altura de nosso estado de vida. Não é apenas uma orientação ética social, ou psicológica. É, sim, espiritual. (MERTON, 2022, p. 18).
Thomas Merton foi um leitor assíduo de Freud e de Jung, leitura perceptível em muitos de seus escritos, além disso, existe uma influência das ideias budistas também.
“O guia espiritual está interessado no conjunto todo da pessoa, pois a vida espiritual não é apenas a vida do espírito ou das afeições ou do “ápice da alma” – é a vida toda da pessoa toda.” (MERTON, 2022, p. 19).
De acordo com T. Merton, “a direção espiritual está interessada na totalidade da pessoa, não como uma simples criatura humana, mas como filho de Deus, um outro Cristo que procura recuperar a semelhança divina em Cristo, e pelo seu Espírito.” (MERTON, 2022, p. 19). O diretor espiritual não é um ser autocrático que deve impor o seu caminho de espiritualidade, como sendo o único caminho possível. Para Thomas Merton é preferível não ter nenhuma direção espiritual do que se submeter ao autoritarismo de um guia espiritual.
O guia espiritual não tem a ensinar o seu próprio caminho, nem mesmo meio algum determinado de oração, e sim deve instruir seus discípulos no modo como têm eles mesmos de descobrir o caminho que lhes convém… Em uma palavra, é apenas o introdutor de Deus junto às almas e deve guiá-las nos caminhos de Deus e não nos dele mesmo. (O místico beneditino inglês do século XVII Dom Augustine Baker In: Merton, 2022, p. 24).
A direção espiritual apresenta um caminho de espiritualidade pessoal, com uma escuta individual e não apenas uma cartilha de comportamentos.
Ela nasce de uma relacionamento pessoal, com vista a guiar a pessoa, o monge, o noviço, na sua interioridade, a encontrar o seu próprio caminho, que seja “sensível às necessidades do indivíduo”. Uma direção “que os conheça e compreenda, numa atmosfera de simplicidade e confiança, sem formalidades…” (MERTON, 2022, p. 28). O diretor espiritual deve ser alguém que zela por sua interioridade. “Seu primeiro dever, se quer ser um guia eficaz, é zelar pela sua própria vida interior e se reservar o tempo devido à oração e meditação, desde que jamais poderá dar a outros o que ele mesmo não possui.” (MERTON, 2022, p. 31).
A vida espiritual, na visão de Thomas Merton, não é sobre o desejo de se tornar perfeito, é algo pessoal, um caminho de interioridade para tornar quem nós somos.
“O que devemos fazer é pôr o guia em contacto com o nosso “eu” verdadeiro, do melhor modo que pudermos, sem ter medo de deixá-lo ver o que é falso em nosso ser falso. (MERTON, 2022, p. 36).
Isso significa ser quem nós somos. “Aproveitaremos melhor da direção espiritual se formos encorajados a desenvolver nossa simplicidade natural, nossa sinceridade, nossa fraqueza e nossa integridade espiritual. Em uma palavra, sermos “nós próprios” no sentido mais elevado do termo.” (MERTON, 2022, pp. 12-13).
Um verdadeiro guia espiritual jamais deixará diminuir em seu íntimo o sentimento de reverência em presença de uma pessoa, de uma alma imortal, amada por Cristo, purificada em Seu Precioso Sangue, nutrida pelo sacramento do Seu Amor. Em realidade, é esse sentimento de respeito pelo mistério da personalidade que faz de alguém um verdadeiro guia espiritual, juntamente com o bom senso, o dom da oração, a paciência, a experiência e uma atitude de compreensão. É claro, como faz ressaltar Santa Teresa, deve ele ser um teólogo. Todavia, dose alguma de estudos teológicos pode dar a alguém o discernimento espiritual, se lhe falta o senso do respeito pelas almas naquilo que lhes é próprio e individual. Isso é um dom que vem da humildade e do amor. A manifestação da consciência, no sentido profundo da palavra, é, muitas vezes, bem difícil. Pode mesmo ser mais difícil até do que a confissão de pecados. Sentimos uma inexprimível vergonha, uma confusão, em escancarar as mais íntimas profundezas de nossa alma, mesmo quando nada há ali para nos envergonhar. Na verdade, é frequentemente mais difícil manifestar o bem que há em nós do que o mal. (MERTON, 2022, p. 37).
A direção espiritual, na realidade dos monges, ocupa um papel especial de escuta e de discernimento da alma. Como não somos monges, na ausência desse diretor, um terapeuta pode exercer muito bem essa função, embora eu acredite fortemente que a direção espiritual possa ser estendida às pessoas de vida comum, sejam elas cristãs ou não. Em outros textos de Thomas Merton, a vida contemplativa é percebida como um caminho universal, como aparece também nos textos filosóficos de Byung-Chul Han e nos escritos de estudiosos budistas. Neste sentido, nem o diretor espiritual ocupa o lugar do terapeuta e nem o terapeuta ocupa o lugar da direção espiritual. O terapeuta é alguém que possui uma escuta ativa, assim como o diretor espiritual. A boa notícia é que a terapia é acessível para todas as pessoas, religiosas ou não.
A Análise Junguiana
Para Carl Gustav Jung, a psicoterapia junguiana é um processo dialético que pressupõe o diálogo entre duas pessoas. Para ele, “a pessoa é um sistema psíquico, que, atuando sobre outra pessoa, entra em interação com outro sistema psíquico”. (JUNG, 2013, p. 13). Assim sendo, na análise junguiana ocorre a “troca entre dois sistemas psíquicos”. (JUNG, 2013, p. 15). Um sistema psíquico atuando sobre outro sistema psíquico, duas almas humanas que interagem entre si. Assim, como o diretor espiritual é alguém que não deve se impor, o mesmo acontece com o analista na psicoterapia junguiana.
Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo sobre a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espírito crítico, pois não estarei reconhecendo que não tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos relativamente genérico. Mas como tudo o que vive só é encontrado na forma individual, e visto que só posso afirmar sobre a individualidade de outrem, o que encontro em minha própria individualidade, corro o risco, ou de violentar o outro, ou de sucumbir por minha vez ao seu poder de persuasão. Por isso, quer eu queira quer não, se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um indivíduo, tenho que renunciar à minha superioridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho que optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos. Ao colocar-nos dessa forma, o sistema dele se relaciona com o meu, pelo que se produz um efeito dentro do meu próprio sistema. Este efeito é a única coisa que posso oferecer ao meu paciente individual e legitimamente. (JUNG, 2013, p. 16).
O terapeuta não pode impor a sua visão de mundo e deve até mesmo renunciar aos seus métodos e técnicas se isso estiver impedindo o progresso do analisando no seu processo de interioridade. O sujeito desse processo é único e não pode ser esgotado e nem interpretado na sua totalidade. “O terapeuta deve renunciar neste caso a todos os seus pressupostos e técnicas e limitar-se a um processo puramente dialético, isto é, evitar todos os métodos.” (JUNG, 2013, p. 19). Em outras palavras: “O terapeuta não é mais um sujeito ativo, mas ele vivência junto um processo evolutivo individual.” (JUNG, 2013, p. 19).
A exigência de análise para o próprio analista tem em vista a ideia do método dialético. Como se sabe, o terapeuta nele se relaciona com outro sistema psíquico, não só para perguntar, mas também para responder; não mais como superior, perito, juiz e conselheiro, mas como alguém que vivência junto, que no processo dialético se encontra em pé de igualdade com aquele que ainda é considerado o paciente. (JUNG, 2013, p. 20).
Nesse processo individual, a cura é um processo de transformação para se tornar quem é. “Mas quando um doente reconhece que a cura por transformação significaria renunciar demais à sua personalidade, o médico pode e deve renunciar à modificação, ou seja, à vontade de curar.” (JUNG, 2013, pp. 22-23).
Em minha clínica particular sempre tenho um número considerável de pessoas muito cultas e inteligentes, de individualidade marcante, que por motivos éticos resistiram fortemente a qualquer tentativa séria de mutação. Em todos esses casos, o médico deve deixar aberto o caminho individual da cura, e neste caso o processo terapêutico não acarretará nenhuma transformação da personalidade, mas será um processo, chamado de individuação. Isto significa que o paciente se torna aquilo que de fato ele é. Na pior das hipóteses poderá chegar a aceitar a sua neurose, porque entendeu o sentido da sua doença. (JUNG, 2013, p. 23).
A escuta é fundamental nesse processo, nela o terapeuta irá ajudar o paciente/cliente a escutar a própria alma.
Nesse processo de escuta da alma, o terapeuta auxilia no processo de discernimento do caminho, na ampliação da consciência e no encontro com a sombra. A ampliação da consciência permite que o indivíduo lide com as questões que emergem do inconsciente, que pautam de modo invisível, os comportamentos, os sentimentos e as escolhas. Num mundo secularizado, onde a religião se tornou um assunto intimista, sem a necessidade de transformação pessoal, a psicologia junguiana se apresenta como uma boa alternativa para guiar mulheres e homens nos caminhos da alma, da interioridade e no encontro de si mesmo.
Silvana Venancio – Doutora em Teologia e Analista Junguiana em Formação pelo IJEP
Ana Paula Maluf – Analista Didata IJEP
Referências:
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.
________. Vita Contemplativa ou sobre a inatividade. Petrópolis: Editora Vozes, 2023.
Jung, C. G.. A Prática da psicoterapia. Petrópolis: Editora Vozes. 2013.
Merton, Thomas. Direção espiritual e meditação. Petrópolis: Editora Vozes. 2022.

