Resumo: O que a cor vermelha revela sobre nossa vida psíquica?
O que nos atravessa? Sou bem suspeita, porque amo essa cor. E você??
Muito além das associações imediatas com paixão, sexualidade, raiva e dores, o vermelho carrega significados profundos que atravessam a história, a cultura e o universo simbólico humano.
O presente artigo busca propor uma reflexão, tendo como base a psicologia analítica, sobre a cor vermelha como símbolo de sensualidade na arteterapia, buscando entender símbolos, significados e complexos nas imagens das técnicas da arteterapia, principalmente no que se refere à sensualidade. Muito além da sexualidade, esse artigo evidencia os aspectos da sensualidade despertados pela cor vermelha.
A elaboração deste artigo foi realizada a partir de uma pesquisa bibliográfica a respeito do tema e, pelo que se pode constatar, não há grande quantidade de material sobre o assunto especificamente relacionado à sexualidade. Este é um dos aspectos da dimensão humana, ainda cercado de muitos mitos, crendices e tabus não apenas sociais, mas principalmente pessoais, ligados aos aspectos sombrios da sexualidade, ainda cercado de muita dor e sofrimento, em razão desse ocultamento e dessa aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dados os parcos recursos bibliográficos disponíveis.
Outro aspecto, perpassa sobre o conceito de normalidade, como se todos os indivíduos fossem iguais e subjugados a essa “normose” social. Ora, as sociedades são entidades dinâmicas, assim, o que é normal hoje pode ser anormal amanhã e vice-versa, uma vez que os padrões culturais mudam com o tempo e dentro do possível devemos também, acompanhar essas mudanças. Jung nos deixa esse “recadinho” quando fala do “Espírito da Época”.
De acordo com Cavalcanti e Cavalcanti (2020), do ponto de vista psicológico, “sexo normal” é aquele que assim é considerado dentro da visão particular de cada um. O que importa na verdade, é a satisfação pessoal ou a adequação sexual de cada indivíduo. Importante lembrar também que “adequação” pressupõe um estado de satisfação intra e interpessoal, ou seja, se o indivíduo está satisfeito com o seu comportamento sexual e com o comportamento sexual do seu parceiro(a), ele/ela é uma pessoa normal ou adequada, do ponto de vista psicológico.
Infelizmente, no desenrolar da cultura ocidental, a mente do homem tornou-se divorciada de seu corpo. A sexualidade, em especial, tem sido associada ao indesejável elemento animal, força demoníaca que corrompe a verdadeira natureza espiritual dos homens. (CONGER, 1993, p. 15)
De acordo com Aufranc (2018), a partir do século XIX, a medicina passou a ocupar o espaço da religião na instrução de como deveria ser o relacionamento sexual. A nudez completa estava associada ao sexo no bordel, as relações deveriam ocorrer no escuro e com corpos cobertos. O prazer nessa época era também vivido na sombra social.
Havia, no século XIX, no Rio de Janeiro, três categorias de prostitutas: as aristocráticas ou de sobrado, que eram em geral francesas, mantidas por políticos ou fazendeiros e estavam associadas ao luxo no morar e no vestir; as de sobradinho, que eram mais pobres e trabalhavam em hotéis, eram polacas ou mulatas; e as da escória, mulheres que atendiam em casebres ou em fundos de barbearias. Já as mulheres honestas não deveriam sentir prazer. A elas era reservado o papel de ser boa mãe, submissa e doce. O instinto materno deveria anular o instinto sexual.
Esse complexo cultural do sexo pudico onde o prazer reside na sombra e deve ser punido exclui toda e qualquer prática sexual que não seja a penetração vaginal realizada em uma cama dentro de um quarto, cujo único fim seja a reprodução. Tudo bem que atualmente, com o advento dos métodos contraceptivos, houve uma grande quebra de paradigma. No entanto, o sexo por prazer ainda tem grandes opositores, principalmente nos campos da religião, onde, veja só, até hoje o uso do preservativo, um dos melhores métodos de proteção, ainda é desaconselhado.
Mesmo com os avanços no ocidente, há ainda um grande tabu a respeito da vivência do sexo como uma atividade adulta humana de afeto, sociabilização ou recreação e não somente para reprodução e perpetuação da espécie.
O complexo cultural do sexo pudico ainda é constelado de maneiras diversas, principalmente em relação às minorias (mulheres e a população LGBTQIAP+ entre as principais). Nesse sentido, as vivências sexuais que não se encaixam no padrão hétero-monogâmico-reprodutivo vão sendo colocadas à margem da consciência coletiva (sociedade) e, apesar de sempre terem sido praticadas, ainda assim são marginalizadas.
Na maioria das casas, o quarto é um dos lugares de maior intimidade. Um quarto de casal é o local no qual se espera que o casal compartilhe a sua intimidade e nele faça o sexo e produza filhos. Isso é uma imagem de como o sexo reprodutivo é, de certa forma ainda, aceito e incluso no dia a dia, considerado como uma parte natural da vida. No casamento, e aqui ressalto, no casamento heterossexual, o sexo reprodução é de certa forma aceito, esperado, desejado, em detrimento do sexo prazer.
Passeando pela história da sexualidade, percebemos a dificuldade não somente da literatura, por ser ela incipiente, a dificuldade pessoal na abordagem e, também da aceitação pela sociedade dessa diversidade sexual, fruto do fato de ter se mantido encoberto nas sombras, a sexualidade.
Falar de sexualidade requer conhecimento básico sobre o tema e sobre a sua própria sexualidade, no sentido de que para falar da sexualidade do outro é necessário trabalhar a sua também. Ora, Jung bem fala que o analista só leva o analisando até onde ele próprio foi levado. Sendo assim, (HOERNI et al., 2019): “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, sempre foi considerada vã.”
Michel Foucault lembra e compara o início do século XVIII onde ainda vigorava uma certa franqueza, no que concernia à sexualidade. As práticas não procuravam segredos, as palavras eram ditas sem muitas reticências, as coisas eram feitas sem demasiado disfarce, eram mais frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade e da decência, comparando-os com os do século XIX.
Um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos. E, se o estéril insiste, e se mostra demasiadamente, vira anormal: receberá este status e deverá pagar as sanções. (FOUCAULT, 2022, p. 7-8)
Assim, sem se falar em sexo e sexualidade, passaram-se dois longos séculos em que tudo relacionado ao tema era reprimido, configurando o que Foucault (2022, p. 8) chamou de “injunção ao silêncio, afirmação de inexistência”. Fora do ambiente familiar, os locais de tolerância eram os hotéis de encontros (rendez-vous) e as casas de saúde, espaços onde conviviam o cliente, o rufião, a prostituta — atualmente denominada profissional do sexo —, o psiquiatra e a sua histérica; esta última, uma clara alusão às agruras da repressão sexual como causa de distúrbios mentais. E as outras formas de viver o sexo, em que lugar é reservado e esperado a sua existência?
Eu digo: nas ruas desertas, nas pequenas matas, terrenos baldios, saunas, boates e no melhor dos casos, o motel. E deles muitas vezes vem a companhia da vergonha e da desinformação. O sexo por prazer, por vocação é uma prática espúria. Novamente, mesmo que desde sempre sua prática tenha sido realizada.
Nesse sentido, pessoas que não têm a conformidade sexual de acordo com esse complexo pudico, são criadas em ambientes (casa, escola, igreja, sociedade) em que a vivência da sua sexualidade é algo feio e que deve ser feito às escondidas, pois a “norma” é que o sexo siga os padrões aprendidos. Aqui abro um parêntese para as práticas criminosas da pedofilia, zoofilia, necrofilia e do estupro ou do abuso sexual. São práticas criminosas e jamais deverão ser consideradas comportamento, somente como crime.
Voltando, pessoas que não tem a vivência oficial, têm na sua prática uma vergonha, uma culpa, ou até algo marginalizado. Nesse sentido procuram locais marginalizados para vivenciar seu prazer e seu Eros. Por bem, hoje em dia as práticas sexuais estão cada vez mais sendo discutidas e trazidas para esse local de intimidade. No entanto, é algo tão recente e eu diria que a grande maioria da população ainda tem em mente o modelo “Disney” de família.
Diante de uma autopercepção da sexualidade e do desejo como elementos espúrios, vergonhosos, pecaminosos ou patológicos, a primeira alternativa costuma ser a repressão do desejo e a tentativa de adequação ao modelo vigente, conforme apontado por Coleman (2015). Embora a virgindade matrimonial não seja mais uma exigência social predominante na atualidade, ainda persistem resquícios desse comportamento, o qual era amplamente valorizado como um “bom costume” até as últimas décadas do século XX.
Por amar a cor vermelha e por vê-la permear algumas imagens de trabalhos na arteterapia, surgiu a necessidade de compreender como os elementos cromáticos, especialmente o vermelho, podem atuar como mediadores entre o inconsciente e a consciência, favorecendo o processo de individuação e possibilitando a integração de conteúdos psíquicos.
De acordo com Jung, a arte representa uma linguagem simbólica do inconsciente, sendo capaz de expressar conteúdos psíquicos inacessíveis à consciência racional. Nesse contexto, a arteterapia configura-se como prática terapêutica mediada pela criação artística, promovendo integração emocional e desenvolvimento psíquico.
Jung compreendia que a psique se expressa espontaneamente através de imagens e símbolos, especialmente em estados criativos. Assim, o fazer artístico favorece o trabalho dos complexos e conteúdos emocionais, auxiliando o indivíduo no processo de individuação: movimento de integração entre consciente e inconsciente.
Além da sexualidade, podemos definir sensualidade como a capacidade humana de experimentar, apreciar e responder às sensações corporais e aos estímulos dos sentidos, integrando prazer, emoção e percepção estética. É a disposição ou capacidade de experimentar prazer através dos sentidos. Não se limita ao sexual, todavia, refere-se ao sensório em geral. Importante chamar a atenção de que a sensualidade é apenas um dos aspectos da sexualidade e talvez um daqueles de maior importância para o acesso ao inconsciente e aos conteúdos sombrios ou não, que podem ser despertados por técnicas da arteterapia, com a utilização das cores ou ainda, pela análise da cor contida nas expressões artísticas do cliente.
Envolve não apenas a dimensão sexual, mas também as características sensoriais em seu sentido mais amplo: o prazer com as cores, formas, sons, texturas, aromas e movimentos, envolvendo os sentidos humanos (visão, audição, tato e paladar). Nesse sentido, constitui também, um dos aspectos da capacidade de vivenciar a sexualidade em sua plenitude e está ligada, inclusive, à autoconfiança e à forma como o indivíduo se sente consigo mesmo, irradiação essa que atrai e seduz, trazendo também mudanças de atitudes e comportamentos positivos relacionados à autoestima e autoimagem.
Assim, no contexto psicológico, a sensualidade pode expressar a ponte entre corpo e psique, revelando-se como abertura para a experiência, o contato afetivo, a arte e a criatividade.
A literatura especializada detalha a origem da cor da seguinte forma:
[…] a palavra “vermelho” vem do latim vermiculus e significa verme, inseto (cochonilha). Dela se extrai uma substância escarlate, o carmim, e chamamos a cor de carmezim (do árabe: qirmezi – vermelho bem vivo ou escarlate), que simboliza uma cor de aproximação, de encontro. (FARINA; PEREZ; BASTOS, 2006, p. 113)
De acordo com Heller (2021, p. 53), “o vermelho foi a primeira cor batizada e a mais antiga denominação cromática do mundo.” Relata também que, em muitas línguas, a palavra correspondente a ‘colorido’ é a mesma que para a cor vermelha, assim como na palavra hispânica ‘colorado’ . Supostamente, também é a primeira cor que os bebês enxergam .
Por ser o “vermelho”, em geral, a primeira cor ensinada às crianças, a maioria acaba citando essa cor como sua favorita. Vem daí que muitas crianças vinculam o vermelho ao sabor doce, como bombons e ketchup, até porque, crianças preferem comer coisas doces e arrisco a dizer, que muitos adultos também. Mas quando as crianças pintam, não mostram nenhuma predileção pelo vermelho, apenas o que verdadeiramente é vermelho é pintado dessa cor.
Ainda no que tange ao universo infantil, a relação com as cores apresenta dinâmicas específicas:
[…] para as roupas, as crianças não dão maior valor ao vermelho. O amor infantil pelo vermelho é o mesmo amor pelos doces. Em se tratando da cor predileta, muitas crianças citam o vermelho, as menores dizem a primeira cor que lhes ocorre. Todavia, tal fato nada tem a ver com as verdadeiras cores favoritas, apenas comprova que em nosso pensamento, pensar em vermelho equivale a pensar em cor. (HELLER, 2021, p. 55)
Em se tratando dos gêneros masculino e feminino, Heller (2021, p. 53) relata que “ambos gostam igualmente do vermelho”. O vermelho agrada aos mais velhos muito mais do que aos jovens.
Do ponto de vista histórico e antropológico, o vermelho é considerado a primeira cor nomeada e utilizada pela humanidade, muito antes de outras tonalidades. Registros arqueológicos apontam que povos pré-históricos empregavam o óxido de ferro (hematita e ocre vermelho) em pinturas rupestres, rituais funerários e ornamentações corporais. Nas antigas civilizações, como o Egito, a Mesopotâmia e Roma, o vermelho esteve associado ao poder, ao sagrado e à guerra. O pigmento extraído do inseto cochonilha, na América pré-colombiana, e do cinábrio, na China, revela a amplitude cultural de sua exploração simbólica. Essa longa trajetória evidencia que o vermelho sempre exerceu uma força mobilizadora na experiência humana, consolidando-se como cor primordial na comunicação simbólica entre corpo, espírito e cultura. (Cf. CHEVALIER, 2023, p. 1030)
O simbolismo do vermelho está marcado por duas vivências elementares: O fogo e o sangue são vermelhos. Em muitas línguas, entre os babilônios e entre os esquimós, a tradução de forma literal de “vermelho” é sangue. (HELLER, 2021, p.53)
O fogo e o sangue, em todas as culturas e em todos os tempos, têm um significado existencial. Da mesma forma, o simbolismo vigora no mundo inteiro, é conhecido de todos, pois todos já tiveram suas experiências envolvendo o significado do vermelho.
A supersaturação com vermelho, sobretudo na propaganda, é o motivo pelo qual o vermelho tem encontrado cada vez menos adeptos; muitos veem mais vermelho do que desejariam. Quando tudo começa a ficar colorido demais, a primeira cor que incomoda é o vermelho, até porque, diferente de outras cores, não é uma cor que descansa os olhos. O vermelho é cor de contraste e vitalidade: pode simbolizar o sangue, a energia vital, a paixão e o desejo.
Ao analisar a psicologia das cores e o repertório simbólico da cor vermelha em diferentes contextos históricos e culturais, observou-se que essa tonalidade é universalmente associada à paixão, excitação e força vital, mas também à dor, perigo e transgressão.
Essa ambivalência revela que o vermelho é mais do que um simples estímulo visual: trata-se de um arquétipo cromático capaz de provocar respostas emocionais profundas e de despertar experiências corporais intensas.
Buscamos examinar a cor vermelha não apenas como uma frequência de luz percebida pela visão, mas, sobretudo, como arquétipo carregado de significados universais e pessoais. Sua relação com a sensualidade pode revelar uma dimensão profunda da psique humana, onde pulsão de vida, paixão, desejo e vitalidade se entrelaçam, evocando forças instintivas e criativas, evidenciando como seu uso na Arteterapia pode facilitar a expressão de afetos, a liberação de conteúdos reprimidos e o fortalecimento da energia vital do indivíduo.
Sabemos também, de que muito além da dor, sofrimento, ódio e agressividade, a cor vermelha pode simbolizar também aspectos da sensualidade do indivíduo, uma vez que esses aspectos podem ser despertados e evidenciados por meio de técnicas e leituras simbólicas, evidenciando que essa cor oferece respaldo teórico e metodológico para compreender essa dimensão sensorial. O diálogo entre a psicologia da cor, simbolismo cultural e a prática arteterapêutica leva a crer que o vermelho não apenas representa a sensualidade, mas inclusive mobiliza essa energia no processo criativo.
Jung (2019, p. 246), em sua vasta investigação sobre a alquimia, encontrou na linguagem simbólica dos antigos alquimistas uma representação metafórica do processo de transformação psíquica que ele denominou Processo de Individuação.
Para Jung, os textos alquímicos, repletos de operações químicas enigmáticas, são expressões imagéticas do trabalho interior que conduz à integração da personalidade. Dentre as etapas desse opus, a rubedo – a “vermelhidão” – ocupa lugar de destaque como estágio final da obra, momento em que a totalidade é atingida e a vida adquire uma nova qualidade.
Podemos dizer que durante um milênio a cor vermelha era considerada a cor masculina, e a branca, a cor feminina. Os alquimistas falavam do servusrubeus (servo vermelho) e da feminacandida (mulher branca): a cópula deles produzia a suprema união dos opostos.
Jung descreveu o alquimista como um “pintor de todas as cores”. Do quatérnio de cores do processo de transformação alquímica ele deduziu as quatro cores básicas e as referiu às qualidades da alma do homem moderno.
A quaternidade na alquimia era, aliás, geralmente expressa pelas quatro cores dos velhos pintores, mencionadas num fragmento de Heráclito: vermelho, preto, amarelo e branco; ou em diagramas como os quatro pontos da bússola. Em termos modernos o inconsciente geralmente escolhe o vermelho, o azul (ao invés do preto), o amarelo ou dourado, e o verde (ao invés do branco). A quaternidade é meramente uma outra expressão da totalidade. Essas cores abarcam o todo do arco-íris. (HOERNI et al., 2019, P. 47)
A rubedo é caracterizada pelo aparecimento da cor vermelha, que, para os alquimistas, indicava que a pedra filosofal ou o elixir da vida estava prestes a ser obtido. Em termos psicológicos, significa a integração entre consciente e inconsciente, masculino e feminino, espírito e matéria.
O vermelho é, portanto, a cor da plenitude. Evoca o sangue, a paixão, a vitalidade, a sensualidade e o amor. Diferentemente do branco do albedo, que expressa pureza e distanciamento, o vermelho traz calor, corpo e presença.
Na alquimia, o nigredo é o estágio inicial, no qual reina a morte, a total inconsciência. A nigredo é seguida, que representa o embranquecimento.
[…] Na alquimia, o branco é seguido pelo vermelho: a alvorada é seguida pela aurora e depois o sol pleno. Também em outros contextos, a alquimia designa o corpo concluído de rubinus ou carbunculus. É um estado mais intenso do que aquele do albedo. Da mesma forma, o vermelho é uma cor emocional e designa o sangue, a paixão e o fogo. (HOERNI et al., 2019, P. 45)
Assim, a rubedo não é apenas iluminação espiritual, mas também encarnação: o Self se manifesta na vida concreta.
No contexto da Arteterapia Junguiana, a sensualidade pode ser compreendida como a capacidade de experimentar prazer e vitalidade por meio dos sentidos, constituindo um caminho de ligação entre corpo e psique. Conforme define Ferrater Mora (2001, p. 1033), a sensualidade é a “disposição ou capacidade de experimentar prazer através dos sentidos não se limitando apenas ao sexual, mas referindo-se às sensações em geral”.
Finalizando esse ensaio, vejo que essa perspectiva dialoga com a concepção junguiana de libido como energia psíquica geral, que se expressa não apenas em impulsos sexuais, mas também em formas criativas e estéticas.
A libido é um appetitus em seu estado natural. Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono, sexualidade, e os estados emocionais, os afetos, que constituem a natureza da libido. Todos estes fatores têm suas diferenciações e sutis ramificações nesta tão complicada psique humana. (HOERNI et al., 2019, P. 165)
No tocante à sexualidade e sobretudo à sensualidade do ponto de vista contemporâneo, é como se viver essa verdade do Eros fosse tão terrível, que só pudesse ser vivida na sombra e de maneira sombria, nesse lado obscuro da sexualidade, onde a vivência do prazer evidencia o lado sombrio e obscuro da dor. Ora, de acordo com Guggenbühl-Craig (2024, p. 113):
[…] a sexualidade ainda é “demonizada” nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de tomá-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo “completamente natural”. Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro. Alguns movimentos de liberação feminina ainda tentam entender a sexualidade como uma arma política.
Como essa vivência é marginalizada não há informação, sobram preconceitos e julgamentos, internos e externos, e sua expressão na vida do indivíduo, pode levar aos comportamentos de risco, já que a relação sexual vira apenas um instinto a ser satisfeito e perde sua faceta sagrada e relacional.
Para Coleman (2015) uma grande mudança seria a educação a respeito da sexualidade, sem a presença de valores religiosos ou morais, no sentido de uma melhor compreensão entre o impulso sexual, o desejo e os comportamentos, permitindo assim uma compreensão mais profunda e tolerância para com os seus próprios comportamentos sexuais, bem como as preferências sexuais dos outros. Através da educação, aceitação e um âmbito empático, devemos assistir a uma re-humanização de nós próprios.
Nesse sentido, percebo que naturalmente, o amor pode ser vivenciado em mais cores do que as que foram generalizadas pelos simbolismos. As cores do amor oscilam tanto quanto as alegrias e as dores ligadas a ele.
No contexto clínico, a aplicação do vermelho em materiais artísticos (tintas, papéis, tecidos ou argilas), pode favorecer o acesso a conteúdos inconscientes ligados à sexualidade e à identidade corporal. Importante enfatizar que a escolha cromática em arteterapia não é aleatória: a cor serve como canal para emoções difíceis de verbalizar, permitindo que aspectos da experiência sensorial e afetiva se expressem na obra antes de emergirem na fala. Assim, a presença do vermelho em mandalas, colagens ou pinturas pode indicar a necessidade de trabalhar temas como dor, desejo, atração, erotismo ou mesmo a construção de uma autoimagem mais integrada e uma auto estima melhorada.
Entretanto, o uso terapêutico do vermelho requer sensibilidade técnica e ética. A intensidade da cor pode despertar ansiedade ou memórias traumáticas, especialmente em indivíduos que associam o vermelho a agressão ou violência (HELLER, 2021, p. 51). Por isso, é fundamental que o arteterapeuta contextualize a proposta cromática, escute o cliente sobre as sensações provocadas e promova a elaboração simbólica do material produzido. Mais do que interpretar de modo direto, o profissional deve acompanhar o processo criativo, favorecendo que a cor revele, no ritmo do cliente, as camadas de sensualidade, prazer e vitalidade que emergem no espaço terapêutico.
Maria Ivanilde Ferreira Alves – Membro Analista em Formação do IJEP
Dra E. Simone Magaldi – Analista Didata e Fundadora do IJEP
REFERÊNCIAS:
AUFRANC, Ana Lia B. Expressões da sexualidade: um olhar junguiano. Junguiana, São Paulo, v. 36, n. 1, p. 37-48, 2018. Disponível em: <https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/244>. Acesso em: 2 jun. 2026.
CAVALCANTI, R.; CAVALCANTI, M. Tratamento clínico das inadequações sexuais. 5. ed. Rio de Janeiro: Payá, 2020.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2023.
COLEMAN, Kathryn. Alienation through Social Construction: A Call for the Re-humanization of Sexuality. Journal of Positive Sexuality, v. 1, p. 25-30, jun. 2015. Disponível em: <https://journalofpositivesexuality.org/wp-content/uploads/2021/09/10.51681-1.121_Alienation-Through-Social-Construction-Coleman.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2026.
CONGER, John P. O corpo como sombra. Tradução de Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: Summus, 1993.
FARINA, Modesto; PEREZ, Clotilde; BASTOS, Dorinho. Psicodinâmica das cores em comunicação. 5. ed. São Paulo: Blucher, 2006.
FERRATER MORA, José. Dicionário de filosofia. Tradução de Maria Stela Gonçalves et al. São Paulo: Edições Loyola, 2001. v. 2.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022. v. 1.
GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O lado demoníaco da sexualidade. In: ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (org.). Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2024. p. 113-119.
HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Olhares, 2021.
HOERNI, Ulrich et al (ed.). A arte de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2019.
JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.
______ A Prática da Psicoterapia. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015b.
PINTO, Diana de Souza et al. Escala de avaliação de comportamento sexual de risco para adultos: tradução e adaptação transcultural para o português brasileiro. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 29, n. 2, p. 205-211, maio/ago. 2007.
SILVEIRA, Nise. Imagens do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.
ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (org.). Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2024.

