Resumo: O presente ensaio é um convite à reflexão simbólica do Complexo de Cassandra e a endometriose. A narrativa mítica apresenta um contexto para pensar sobre os significados da histeria e fazer uma releitura desse diagnóstico de forma simbólica. Esse texto não se propõe a esgotar o tema, mas a aprofundar a reflexão acerca do descrédito do feminino e do enlouquecimento do feminino sob uma leitura arquetípica do complexo materno negativo.
Durante milhares de anos a condição chamada “histeria” foi documentada como uma condição médica. Muito embora tal condição tenha sido excluída dos manuais diagnósticos de doenças mentais, desde a criação do DSM III (Manual de Estatística e Diagnóstico das Doenças Mentais), sua importância continua se fazendo relevante nos dias de hoje.
Há de se ter em mente que tal condição foi documentada sempre do ponto de vista médico na era patriarcal, sendo um diagnóstico com a intenção de diminuir as densidades emocionais femininas. Contudo, tal condição guarda em si um componente arquetípico que não deve ser ignorado. Esse ensaio se propõe a fazer uma leitura possível sobre a endometriose e o enlouquecimento do feminino a partir da análise do mito de Cassandra. A proposta é observar como o diagnóstico de histeria continua tendo valor no que tange a descrição sintomatológica e fazer uma releitura sobre suas características para a elaboração do feminino desacreditado.
O mito de Cassandra e a experiência do descrédito
Inicialmente, analisaremos o mito de Cassandra, sob a perspectiva de Laurie Schapira:
“Cassandra foi uma das filhas de Príamo e de Hécuba, reis de Tróia. Um dia em que se achava no tempo de Apolo, o deus surgiu à sua frente e prometeu conceder-lhe o dom da profecia se ela concordasse em se deitar com ele. Cassandra aceitou o presente que o deus lhe oferecia, mas recusou-se a cumprir a sua parte no acordo.
Dizem que os favores divinos, uma vez concedidos, não podem ser tomados de volta. Apolo, então, implorou a Cassandra que lhe desse um beijo e, quando ela o fez, ele soprou-lhe a boca (segundo outras versões, cuspiu) condenando-a, desta forma, a que ninguém acreditasse em suas profecias.
Desde o início da guerra de Tróia, Cassandra vaticinou-lhe o triste fim – ninguém, porém, deu ouvidos às suas predições. Avisou que o cavalo de madeira servia de esconderijo para os gregos – os troianos não deram crédito às suas palavras. Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”. SCHAPIRA (2018, p. 21, 22)
Depreende-se do relato mitológico que Cassandra era uma mulher inocente, praticamente juvenil. Pode-se especular que inicialmente tenha se sentido honrada de ser cortejada pelo deus Apolo, com suas promessas de torná-la uma de suas Pítias. Contudo, recebendo o dom da profecia, pode ter sentido o peso da responsabilidade do que estava oferecendo em troca. No mundo antigo não era possível dizer não a um deus. Pode-se dizer que o simples fato de Cassandra apresentar algum grau de ambivalência sentimental ao acordo e não sustentar essa dualidade interna entre a luz e a sombra foi o que de fato a levou ao quadro de histeria.
Complexo materno negativo e a constituição psíquica de Cassandra
Em realidade, a dualidade apresentada por Cassandra revela um complexo materno negativo, em que ela não é capaz de sustentar o peso da própria existência. Em algumas origens do mito, conta-se que Cassandra durante a festa foi dormir no templo de Apolo. Os pais, embriagados voltaram para casa sem ela, e posteriormente foi encontrada pelos pais com serpentes envoltas em si mesma. Tal relato, revela o descaso dos pais com relação à própria filha. Percebe-se na personalidade de Cassandra a dúvida em relação ao que ela mesma é capaz de suportar. Ela escolhe aceitar o dom da profecia, mas ao recebê-lo, não parece ser capaz de suportar as consequências de sua decisão. Falta-lhe o guia interno que é oferecido pelo materno.
Ensina Jung, que o complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico. O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser. No caso de Cassandra, parece se apresentar uma forma de complexo materno negativo intermediário. Tal complexo é descrito por Jung da seguinte forma:
“Trata-se, nesse tipo intermediário, menos de uma exacerbação ou bloqueio dos instintos femininos do que uma defesa contra a supremacia da mãe que prevalece sobre o resto. Este caso é o exemplo típico do complexo materno negativo. Seu lema é: qualquer coisa menos ser como a mãe! Trata-se, por um lado, de um fascínio que, no entanto, nunca se torna uma identificação, e, por outro, de uma exacerbação do eros que se esgota, porém numa resistência ciumenta contra a mãe. Tal filha sabe tudo o que não quer, mas em geral não tem clareza acerca do que imagina ser seu próprio destino. Seus instintos concentram-se na mãe, sob a forma de defesa, não se prestando, pois, à construção de sua própria vida. Todos os processos e necessidades instintivos encontram dificuldades inesperadas; a sexualidade não funciona ou os filhos não são bem-vindos, ou os deveres maternos lhe parecem insuportáveis, ou ainda as exigências da vida conjugal são recebidas com irritação e impaciência. De certa forma, tudo isso não pertence às realidades essenciais da vida, uma vez que seu fim último é constituído unicamente pela defesa persistente contra o poder materno. Em tais casos, podemos ver em todos os seus detalhes os atributos do arquétipo materno. Por exemplo, a mãe enquanto família, ou clã, produz uma violenta resistência ou falta de interesse por tudo o que representa família, comunidade, sociedade, convenção etc. A resistência contra a mãe, enquanto uterus, manifesta-se muitas vezes através de distúrbios da menstruação, dificuldade de engravidar, horror da gravidez, hemorragias e vômitos durante a gravidez, partos prematuros etc. A mãe enquanto matéria provoca impaciência em relação ao objeto, desajeitamento na manipulação de ferramentas e louças, bem como mau gosto no vestir. A partir da defesa contra a mãe verifica-se ocasionalmente um desenvolvimento espontâneo da inteligência, com o intuito de criar uma esfera em que a mãe não exista. Esse desenvolvimento resulta das necessidades próprias da filha e não visa homenagear um homem que ela queira impressionar, simulando uma camaradagem espiritual. O propósito é quebrar o poder da mãe através da crítica intelectual e cultura superior, de modo a mostrar-lhe toda a sua estupidez, seus erros lógicos e formação deficiente. O desenvolvimento intelectual é acompanhado de uma emergência de traços masculinos em geral.” (JUNG, 2014, §§ 170, 171) (Grifos nossos)
A partir das explicações de Jung, reflete-se que Cassandra, uma jovem que apresenta um complexo materno negativo, uma vez dotada do dom da profecia, manifesta uma desorientação diante das visões que a acometeram. Como Jung descreveu, ela não tem clareza acerca do próprio destino, e como não possui repertório afetivo, confunde a “camaradagem espiritual” e torna-se uma histérica neurótica.
O símbolo do vaso, o feminino ferido e a histeria
Compreende-se que a figura do vaso, na alquimia é o recipiente no qual a experimentação aconteceria. O vaso, pode ser representação do feminino também. O útero, é o recipiente do qual emerge a vida. No complexo materno descrito por Jung, numa resistência contra a mãe, Cassandra apresentaria uma rachadura psíquica, em que seu útero seria ferido. Tal compreensão é consubstanciada pela sua recusa ao deitar-se simbolicamente com o masculino Apolo (deus da razão). Vê-se uma nítida desarticulação entre eros (a união) e o logos (a razão). Muito embora Cassandra apresente um desejo de tornar-se portadora da voz do deus (razão), ela não é capaz de articular a própria voz do feminino em si. Sendo assim, como descreve SCHAPIRA (2018, p. 22): “Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”.
Ainda sobre esse assunto, SCHAPIRA (2018, p. 23, 24), esclarece:
“No processo divinatório, sabia-se que a Pítia tornar-se-ia ‘entheos, plena deo’, o que significa que ‘o deus entraria dentro dela e usaria seus órgãos vocais como se a ele pertencessem’. Arquetipicamente, o “vaso” está associado ao feminino, a capacidade receptiva, ao útero. No aspecto pessoal, o vaso psicológico de uma mulher é o seu ego. Cassandra tinha um vaso frágil. Essa foi sua trágica falha. Ela não era virgem no sentido psicológico.
Cassandra, como as histéricas, faria qualquer coisa para ser amada. Disse não a Apolo, por ter sido essa a única forma que encontrou para sobreviver ante o esmagador poder do masculino. Infelizmente não foi capaz de repudiar Apolo de maneira mais consciente e direta, nem de enfrentar sua sombra voraz e misógina. Se o tivesse feito, teria reivindicado sua realidade feminina e defendido a virgindade que, eventualmente, lhe possibilitaria cumprir seu destino de vaso sagrado para o deus.”
Ou seja, sua não integridade psíquica foi o que a levou de fato à loucura. O fato de não integrar a sombra do feminino ferido, a tornou indisponível para ligar-se eroticamente com a figura do masculino. Não possuindo as características necessárias para se direcionar, aprovar-se e ser honesta a si mesmo, negou a capacidade da intuição profética. Ao não suportar a tensão dual entre o saber do destino e o acreditar, tornou-se descreditada perante todos.
Para SCHAPIRO (2018, p. 60):
“Cassandra personifica o conflito arquetípico entre os valores matriarcais e patriarcais, ambos pugnando pela supremacia e sem vínculo de Eros para uni-los. A histeria tem sido através dos tempos uma manifestação dessa ruptura psíquica. […] Como vimos, a tragédia de Cassandra consubstanciou-se em sua incapacidade para realizar seu destino de Pítia, vaso sagrado para a profecia divina. Sob um enfoque psicológico, seu complexo materno negativo subverteu o desenvolvimento de um ego ligado à matriz do Self feminino. Devido a isso, Cassandra carecia de uma limitação feminina para o ego – com efeito: ela não tinha útero.”
Histeria, útero e adoecimento psicossomático
Diferentemente do que prega Schapira, e apoiado na teoria Junguiana, defendemos que Cassandra tinha sim um útero. Prova-se que tinha pois foi capaz de receptar o dom da profecia. Contudo, o útero demasiado ferido por seu complexo materno, apresentou um adoecimento físico e psíquico. O adoecimento físico, é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.
Sobre o conceito de histeria, ensina SCHAPIRO (p. 60, 61):
“Existe na verdade, uma tradição de quatro mil anos que considera a histeria como uma doença do útero. […] Documentos médicos egípcios datam de 1900 a. C.; o mais antigo desses – o Papiro de Kahun – trata especificamente da histeria, que descreve como uma doença feminina, causada por “fome do útero ou por seu deslocamento ascendente, com a consequente compressão dos outros órgãos”.
Os gregos aceitaram essa teoria e até batizaram a doença com o nome de hystera, que significa útero. Eis aqui a vívida descrição de Platão:
“No que denominamos útero ou matriz, existe uma criatura viva, dotada de grande desejo de procriar que, se não der frutos no seu tempo devido, irrita-se e sente-se lesada, passando a perambular por todo o corpo, impedindo a respiração por bloquear as vias respiratórias, causando à paciente extrema angústia e desencadeando um sem-número de distúrbios. ”
A endometriose é uma doença inflamatória crônica e benigna em que células semelhantes ao endométrio (tecido que reveste o interior do útero) crescem fora dele. Diante disso, vê-se que o que Platão relata como histeria, muito se assemelha ao conhecido hoje por endometriose.
Pode-se compreender que Cassandra foi incapaz de receber Apolo sexualmente, mas que quando ele cospe em sua boca, e a amaldiçoa, ele também toma para si a voz dela. A representação do útero aqui se manifesta também no poder de proclamar as tragédias, manifestando o trauma de não poder controlá-los ou evitá-los. A voz de Cassandra foi tomada de tal forma que impossibilita que ela tenha controle sobre sua autoimagem.
A endometriose, embora atualmente reconhecida como uma doença inflamatória crônica de elevada prevalência entre mulheres em idade reprodutiva, permanece marcada por longos períodos de subdiagnóstico, banalização da dor e descrédito das experiências narradas pelas pacientes. Esse fenômeno evidencia que o sofrimento decorrente da doença não se restringe aos seus aspectos orgânicos, mas é atravessado por construções históricas, sociais e culturais acerca do corpo feminino e de sua capacidade de expressar legitimamente o sofrimento. O adoecimento físico é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.
Poder, corpo e descrédito do sofrimento feminino
Nessa perspectiva, a contribuição de Michel Foucault possibilita compreender que as categorias de normalidade, doença e desvio são produzidas por regimes de saber e poder que organizam a forma como determinados discursos são reconhecidos ou desautorizados socialmente (FOUCAULT, 1978; FOUCAULT, 2006).
Em História da Loucura, Foucault (1978) demonstra que a constituição da racionalidade moderna implicou a produção de mecanismos de exclusão de sujeitos cujas experiências não se adequavam aos critérios socialmente estabelecidos de verdade. Embora sua análise tenha como foco a construção histórica da loucura, suas reflexões permitem compreender processos mais amplos de invalidação discursiva, nos quais determinadas narrativas deixam de ser reconhecidas como legítimas em razão das relações de poder que sustentam o saber científico. Posteriormente, ao analisar a emergência do poder psiquiátrico, o autor evidencia que a medicina não apenas descreve os fenômenos do adoecimento, mas também produz formas de subjetivação, definindo quais discursos possuem autoridade para nomear o sofrimento e quais permanecem relegados à suspeita ou ao silêncio (FOUCAULT, 2006).
Essa perspectiva mostra-se particularmente relevante para a compreensão da experiência vivida por mulheres com endometriose.
Diversos estudos apontam que a dor feminina, sobretudo quando relacionada à saúde reprodutiva, historicamente foi interpretada como exagero, fragilidade emocional ou consequência natural da condição de ser mulher, contribuindo para atrasos diagnósticos que frequentemente ultrapassam vários anos. A persistente necessidade de reafirmar a realidade da própria dor diante de profissionais, familiares e instituições revela que o sofrimento produzido pela endometriose é também relacional, uma vez que decorre da constante deslegitimação da experiência subjetiva.
A experiência vivida por mulheres com endometriose ultrapassa os limites da dimensão biomédica e evidencia a intersecção entre corpo, subjetividade e construções socioculturais.
Embora a doença possua etiologia orgânica reconhecida, seu percurso diagnóstico frequentemente é marcado pela banalização da dor, pela demora na investigação clínica e pela recorrente deslegitimação da narrativa das pacientes. Tal realidade permite compreender que o sofrimento associado à endometriose não decorre exclusivamente das lesões endometriais, mas também das relações históricas de poder que determinaram quais corpos, sintomas e discursos seriam considerados legítimos no campo da saúde.
Michel Foucault (2011), ao analisar o surgimento da medicina moderna em O nascimento da clínica, demonstra que o saber médico não constitui apenas um instrumento de descrição objetiva da doença, mas um regime de produção da verdade sobre o corpo. O denominado “olhar clínico” reorganiza a experiência do adoecimento ao deslocar a autoridade interpretativa do sujeito para o especialista. Nesse processo, a narrativa da pessoa enferma tende a perder centralidade diante dos critérios objetivos estabelecidos pela racionalidade biomédica.
Essa reflexão mostra-se particularmente pertinente para compreender a experiência da endometriose, uma vez que inúmeras mulheres relatam anos de sofrimento antes que sua dor seja reconhecida como manifestação de uma condição clínica legítima.
Nesse contexto, evidencia-se um paradoxo: enquanto os sintomas dolorosos são, muitas vezes, desacreditados ou negligenciados, a infertilidade tende a mobilizar a atenção da medicina reprodutiva, área que atualmente movimenta um mercado expressivo em torno do tratamento da infertilidade.
Essa análise é aprofundada quando Foucault (2017) discute a constituição do biopoder e das tecnologias disciplinares que incidem sobre os corpos. O corpo feminino passa a ocupar posição estratégica nas práticas de normalização, sobretudo por sua vinculação histórica à reprodução, à sexualidade e à maternidade. A medicina, nesse contexto, deixa de exercer apenas uma função terapêutica e passa igualmente a normatizar comportamentos, definir padrões de saúde e produzir discursos acerca do que significa ser uma mulher considerada saudável ou normal. A dor menstrual intensa, por exemplo, frequentemente foi interpretada como parte inerente da feminilidade, contribuindo para que manifestações compatíveis com a endometriose permanecessem invisibilizadas durante longos períodos históricos.
Essa perspectiva dialoga diretamente com Simone de Beauvoir (2019), para quem a experiência feminina não decorre exclusivamente da biologia, mas da construção histórica e cultural das relações de gênero.
Ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se mulher”, Beauvoir evidencia que as formas de perceber, interpretar e expressar o próprio corpo são socialmente aprendidas. Sob essa ótica, a naturalização do sofrimento ginecológico integra um processo mais amplo de socialização feminina, no qual suportar a dor frequentemente é apresentado como atributo esperado das mulheres. A consequência é a produção de subjetividades que tendem a relativizar ou silenciar seus próprios sintomas, dificultando o reconhecimento do adoecimento.
Susan Bordo (1997), por sua vez, demonstra que o corpo feminino constitui um território privilegiado de inscrição das normas culturais. Em sua análise, as experiências corporais das mulheres são constantemente reguladas por expectativas sociais relacionadas ao controle, à produtividade, à aparência e à funcionalidade. A doença, especialmente quando produz dor crônica e limitações físicas, rompe esse ideal normativo e pode conduzir à desqualificação da experiência vivida. Assim, o sofrimento deixa de ser compreendido apenas como fenômeno biológico para tornar-se também uma experiência socialmente mediada, na qual o reconhecimento da dor depende das representações culturais acerca do corpo feminino.
A aproximação entre Cassandra e a experiência da endometriose revela significativa potência simbólica.
Muitas mulheres descrevem anos de peregrinação por diferentes serviços de saúde, repetindo narrativas sobre dores incapacitantes, infertilidade, fadiga ou alterações menstruais antes de receberem confirmação diagnóstica. Essa repetição produz uma experiência psíquica que ultrapassa a doença orgânica: instala-se a vivência de falar reiteradamente uma verdade corporal que permanece sem reconhecimento. Nessa perspectiva, o complexo de Cassandra deixa de representar apenas um fenômeno intrapsíquico para expressar também uma configuração relacional e cultural, na qual a invalidação sistemática da palavra feminina intensifica o sofrimento emocional.
Dessa forma, o complexo de Cassandra oferece uma importante chave interpretativa sob a ótica da Psicologia Analítica.
Derivado da narrativa mítica da princesa troiana condenada a prever acontecimentos verdadeiros sem jamais ser acreditada, o complexo simboliza a experiência psíquica de possuir uma percepção autêntica que encontra repetidamente descrédito no outro. Transposto para o contexto da endometriose, esse arquétipo expressa o sofrimento de mulheres que reconhecem a gravidade de seus sintomas, mas encontram sucessivas respostas de minimização, patologização ou invisibilização de sua experiência corporal. O núcleo do sofrimento deixa, assim, de residir exclusivamente na doença orgânica, passando a incluir a ruptura do reconhecimento do feminino interno.
A queda de Tróia, prevista por Cassandra, representa um momento histórico e mítico de profundas transformações nas relações entre povos e formas de organização social. Na tradição simbólica, Tróia pode ser compreendida como uma das últimas grandes referências de estruturas vinculadas ao imaginário matriarcal a sucumbir diante da consolidação das formas patriarcais de poder. Nesse contexto, é natural que Cassandra se torne um dos maiores arquétipos do descrédito do feminino, da mulher que sabe, vê e anuncia, mas cuja voz é sistematicamente desacreditada.
Essa dinâmica alcança seu desdobramento mais emblemático no ciclo posterior da Casa de Atreu, culminando no julgamento de Orestes, filho de Clitemnestra e Agamenon. Ao matar a própria mãe para vingar o pai, Orestes torna-se protagonista de um dos episódios mais significativos da transição simbólica entre valores matriarcais e patriarcais na cultura grega. Contudo, essa é uma história que merece ser contada à parte. E será justamente ela o tema do próximo artigo.
Me. Michella Paula Cechinel Reis – Membro Analista em Formação IJEP
Paula de Azevedo Bernardi Peñas – Membro Analista em Formação IJEP
Dra. E. Simone Dalvio Magaldi – Analista Didata e Diretora do IJEP
Referências:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 1.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 2.
BORDO, Susan. O corpo e a reprodução da feminilidade: uma apropriação feminista de Foucault. In: JAGGAR, Alison M.; BORDO, Susan R. (org.). Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1978.
FOUCAULT, Michel. O poder psiquiátrico: curso no Collège de France (1973-1974). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 30. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
SCHAPIRA, Laurie Layton. O complexo de Cassandra: Histeria, descrédito e o resgate da intuição feminina no mundo moderno. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2018.

