Resumo: Em uma contemporaneidade marcada pelo individualismo, pela lógica da produtividade e pelo excesso de controle racional sobre a vida, as relações amorosas parecem atravessar uma crise de indisponibilidade psíquica. Partindo da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, este artigo propõe uma reflexão sobre o amor enquanto experiência de transformação e vulnerabilidade, investigando as dificuldades contemporâneas em sustentar vínculos afetivos profundos. A partir dos conceitos de projeção, Eros e Logos, discute-se como o apaixonamento pode funcionar como uma abertura para o inconsciente e para o autoconhecimento, ao mesmo tempo em que ameaça a fantasia moderna de autonomia absoluta. O texto também problematiza como o amor é algo constantemente adiado em nome de ideais de estabilidade e sucesso.
Falar sobre amor na contemporaneidade talvez seja falar justamente sobre aquilo que estamos aprendendo a evitar.
Em pleno século XXI, nunca houve tantas possibilidades de conexão e, paradoxalmente, tanta dificuldade em sustentar vínculos profundos. O amor parece ter se tornado um risco alto demais para sujeitos treinados a sustentar uma persona de produtividade, capaz de gerir racionalmente a própria existência.
Jung, em sua época, já era procurado por várias pessoas porque não conseguiam manter o casamento. Com o passar do tempo, essa realidade ainda atormenta vários casais, apesar da flexibilização dos modelos de relação afetiva e dos avanços em relação à liberdade da mulher. É importante destacar que trata-se de uma reflexão dentro de um contexto brasileiro, onde a relação amorosa e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão garantidos por lei, além de existirem movimentos sociais consistentes contra a discriminação de pessoas LGBTQIAPN+, em favor da mulher e daqueles que motivam reflexões sobre relacionamentos monogâmicos, poliamorosos ou amores livres.
Entretanto, independentemente da configuração escolhida para viver a afetividade, algo parece atravessar todas elas: uma crescente indisponibilidade psíquica para o encontro amoroso.
Não se trata apenas da dificuldade em manter relações duradouras, mas da própria dificuldade em suportar aquilo que o amor inevitavelmente convoca — vulnerabilidade, ambiguidade, frustração, transformação e perda de controle.
Na verdade, independentemente da intenção individual em estabelecer um vínculo amoroso de longo prazo ou das opiniões coletivas, as pessoas parecem cada vez menos estarem disponíveis para um relacionamento romântico e para suas desventuras. Isto porque, num contexto de estresse profissional, demandas de ideias de felicidade e ideais estéticos, e um vício em redes sociais, sobra muito pouco tempo de qualidade para si e para o relacionar-se. Eros é colocado na gaveta como o melhor “custo-benefício” do que pode ser deixado para depois.
Vivemos sob a lógica da otimização constante: otimização do tempo, do corpo, da carreira, das emoções e até dos afetos. Amar, porém, é improdutivo.
O amor interrompe planejamentos, relativiza certezas e nos coloca diante do outro como alteridade radical — algo que escapa completamente à fantasia contemporânea de autonomia total.
A consequência são indivíduos intolerantes à diversidade e ao acaso, pessoas que controlam cada segundo de suas vidas, acreditando que lidar com os próprios desejos e com os desejos do outro é perda de tempo. E, neste controlar, neste deixar para depois o amor enquanto não se tem a “vida perfeita” e suas estabilidades fictícias nos aspectos profissionais e financeiros, os dias passam, a idade avança e a possibilidade de uma relação que favoreça o encontro com si-mesmo se esvai.
Talvez o grande paradoxo contemporâneo seja o fato de que nunca tivemos tanta liberdade para escolher nossos vínculos e, ainda assim, nunca estivemos tão amedrontados diante deles. Jung parte do princípio de que só podemos nos conhecer a partir do relacionar; “cumprimos” nosso papel se nos relacionarmos. A vida humana é uma relação interna e externa. O indivíduo se relaciona com a sociedade através da persona, mas também através da projeção.
Na psicologia analítica, não existe processo de individuação sem relação.
O sujeito só se conhece verdadeiramente ao encontrar aquilo que o desestabiliza no outro. Nesse sentido, o amor deixa de ser apenas uma experiência romântica e passa a ser também um fenômeno profundamente psicológico.
A projeção, que geralmente é vista no universo da psicologia analítica como um fenômeno negativo, é uma porta de entrada para o autoconhecimento. Projetamos no outro nossos aspectos inconscientes não integrados, tanto os bons quanto os ruins. Diz-se que o apaixonamento nada mais é do que uma projeção, como se isso fosse algo unicamente pejorativo. Entretanto, o apaixonamento inaugura uma abertura psíquica rara. Algo no outro nos captura porque toca dimensões adormecidas da nossa própria alma.
Como um bom paradoxo junguiano, o apaixonar-se é uma possibilidade dupla.
Podemos “erroneamente” nos apaixonar por um indivíduo cujas características na verdade dizem muito mais respeito a nós do que ao outro, mas é também a partir deste “erro” que baixamos a guarda e nos tornamos vulneráveis. A partir de um “ponto-cego”, nos deixamos levar por afetos que nos tiram do controle, que fazem nosso coração acelerar, esquecendo compromissos de trabalho, nos fazendo criativos, sonhando acordado, escrevendo poemas e cartas de amor (ahhhh, as cartas de amor em outros idos…).
Talvez por isso o apaixonamento seja tão ameaçador para a subjetividade contemporânea. Apaixonar-se significa interromper momentaneamente a ilusão narcísica de autossuficiência. O sujeito apaixonado perde eficiência, distrai-se, torna-se permeável ao imprevisível. Há algo de profundamente anticapitalista na experiência amorosa.
O apaixonamento pode ser visto talvez como a última arma que resta ao inconsciente para conseguir dialogar com uma consciência unilateralizada, “dona de si”, totalmente voltada ao capitalismo, à produtividade e ao enriquecimento a qualquer custo.
Entretanto, Jung diferencia claramente paixão e amor.
A paixão inaugura o processo; o amor é aquilo que pode surgir depois da queda das idealizações. E qual seria então a segunda parte? Onde está o amor? O amor aparece no PROCESSO. Amor é processo! Ele surge se e somente se a primeira paixão, cheia de ilusões, se esvazia pela dura realidade das contradições, dos equívocos, dos maus humores e dos ruídos naturais de ser vivo e de estabelecer relação com o outro.
É somente quando o outro deixa de ser fantasia e passa a existir concretamente, com limites e falhas, que o amor pode começar.
Amar talvez seja sustentar a tensão entre aquilo que idealizamos e aquilo que o outro efetivamente é. E a relação surge aqui, com o famoso Eros. Eros, para a mitologia grega, e Cupido, dentro da mitologia romana, são personificações da imagem arquetípica das paixões e do impulso instintivo da procura pela relação afetiva.
Dentro da psicologia junguiana, Eros é o contraponto de Logos. “Eros” é o colocar-em-relação e “Logos”, o distinguir, o julgar, o reconhecer (JUNG, 2012, § 218). Mais do que conceitos abstratos, Eros e Logos representam modos fundamentais de estar no mundo. Logos organiza, separa, analisa e controla. Eros aproxima, vincula, mistura e transforma. Uma vida psíquica saudável depende da circulação entre essas duas forças.
Neste sentido, faz-se necessária uma vida que consiga ser pendular e agir dentro destes dois polos nas circunstâncias e situações que lhes cabem. Infelizmente, Eros é constantemente subjugado em detrimento da supremacia do Logos, como indicado no início deste texto.
A contemporaneidade privilegia sujeitos altamente funcionais, eficientes e estrategistas.
O excesso de Logos produz indivíduos extremamente adaptados ao desempenho social, mas emocionalmente empobrecidos. Há pouco espaço para a demora, para o mistério e para a experiência subjetiva profunda.
Quero acrescentar que o logos só é ideal quando contém o eros; de outra forma o logos não é nada dinâmico. Um homem que é apenas logos pode ter um intelecto muito afiado, mas não é nada além de um racionalista árido, e o eros que não contém nenhum logos em si nunca entende coisa alguma, não há nada nele além de um cego apego. Essas pessoas podem estar ligadas a deus sabe o quê, como certas mulheres totalmente absorvidas por uma pequena família feliz — primos, parentes etc. — e em toda está maldita coisa não há nada, é tudo completamente vazio. (JUNG, Traumanalyse, 748, apud JUNG, 2005, p. 35)
Eros está mais para o tempo de Kairós e Logos mais para o tempo de Cronos, uma vez que as relações amorosas precisam de tempo para acertos e erros, desencontros, descobertas, conflitos e resoluções. O tempo do amor não é um tempo linear ou produtivo que tem uma meta precisa no final da jornada; o amor é a jornada. Talvez por isso tantas relações fracassem prematuramente: espera-se do amor eficiência emocional imediata. Ao primeiro conflito, silêncio ou frustração, interpreta-se a relação como “errada”. O sujeito contemporâneo parece cada vez menos preparado para sustentar a lentidão e os atravessamentos inevitáveis do vínculo amoroso.
Neste sentido, Eros também é fundamental para o despertar da vida anímica. Sem a capacidade de buscar este amor externo e sustentar seus desafios, parece quase impossível o surgimento de uma consciência capaz de sustentar o paradoxo de, primeiro, não ser o único dono da casa psíquica, e, em segundo, se relacionar com figuras como sombra, complexos e animus e anima, sendo estes últimos os grandes elementos projetados dentro de uma relação romântica.
Controlar o amor talvez seja uma tentativa desesperada de evitar sofrimento psíquico.
Controlamos porque temos medo da perda, da rejeição, da dependência, do abandono e, principalmente, do desconhecido que emerge em nós quando entramos verdadeiramente na relação. A relação amorosa confronta o ego com seus limites. O outro não corresponde exatamente às nossas expectativas, não sente quando queremos, não deseja como desejamos. Eros constantemente frustra a fantasia de controle absoluto da consciência.
Como sustentar a oposição abismante entre ego/persona e sombra se não consigo ainda lidar com as projeções e contradições do encontro com outros indivíduos? Quem dirá sustentar a relação com animus e anima, que é pura sedução, que faz uma força contra a vontade do ego e o “tudo saber” da consciência? Por isso, tantas relações contemporâneas tornam-se excessivamente negociadas, racionalizadas e monitoradas. Busca-se prever tudo: intenções, sentimentos, respostas, fidelidade, futuro.
Contudo, quanto mais o amor é submetido à lógica do controle, menos espaço resta para Eros.
O modo de apetecer é tão importante porque confere ao objeto a qualidade estética e moral do bom e do belo e com isto influencia profundamente nosso relacionamento com os outros e com o mundo. A natureza é bela porque eu a amo, e bom é tudo aquilo que meu sentimento considera “bom”. Os valores se originam sobretudo do tipo de reação subjetiva. Com isto não negamos a existência dos assim chamados valores “objetivos”. Mas estes são válidos graças a um consenso geral. No domínio do Eros, torna-se bem claro quão pouco vale o objeto e quanto vale o ato subjetivo. (JUNG, 2013, §126)
A questão talvez não seja evitar a projeção, mas atravessá-la conscientemente.
Não existe encontro amoroso sem algum grau de ilusão inicial. A projeção é inevitável porque enxergamos o outro também através das imagens internas que carregamos. O perigo não está em projetar, mas em permanecer aprisionado eternamente à fantasia sem aceitar a realidade concreta da relação. O amadurecimento amoroso exige a dolorosa retirada das projeções. Aquilo que amamos revela menos o objeto amado e mais nossa própria forma de desejar o mundo. O amor é também um espelho da alma. Neste sentido, negar Eros em nome de uma vida completamente racional talvez seja negar uma dimensão essencial da experiência humana: “Eros não é a totalidade em nós, mas é pelo menos um dos seus aspectos principais” (JUNG, 2014, §33).
Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja mais “o que é o amor?”, mas sim: “ainda conseguimos suportá-lo?” Eros exige disponibilidade psíquica, tempo, vulnerabilidade e capacidade de transformação. Ele ameaça o ego porque rompe a ilusão de controle absoluto sobre si e sobre a vida. Amar implica aceitar que não somos inteiramente senhores da própria casa psíquica.
Talvez o desafio contemporâneo seja justamente o de recuperar uma forma de relação que não seja nem pura racionalização defensiva, nem pura fusão inconsciente. Um amor capaz de suportar paradoxos, diferenças e imperfeições. No fim, Eros talvez sobreviva apenas naqueles que ainda conseguem se arriscar ao encontro.
Pollyana Guilhermino de Pádua – Membro Analista em Formação IJEP
Dra E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
JUNG, Carl Gustav. Sobre o amor. Tradução de Inês Antonia Lohbauer. Aparecida: Ideias & Letras, 2005.
______ Mysterium coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
______ Símbolos da transformação. Análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______Psicologia do inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

