Resumo: Diante do sofrimento pessoal ou coletivo, um comportamento contemporâneo chama a atenção: piadas rápidas buscam desviar a atenção da dor vivida, como se rir dos problemas fosse a única solução. Neste artigo, com trechos de Cartas de Jung, de Assim falou Zaratustra e de Sidarta convido para reflexão sobre o sofrimento intrínseco à existência humana.
A visita à exposição A alma humana, você e o universo de Jung começava com a seguinte pergunta: “Do que tanto você tenta fugir quando se distrai?”. A exposição, que é um convite ao autoconhecimento à luz da cosmovisão de Jung, já recebeu mais de 103 mil visitantes, nas duas montagens realizadas (em São Paulo e Recife).
Fotografada e postada milhares de vezes pelo público, a pergunta parece ecoar na psique contemporânea, que vem perdendo, geração após geração, a capacidade de sustentar a atenção em tudo, mas ouso dizer, especialmente, de sustentar a atenção no que incomoda.
Criadas à luz do espírito de nossa época e usadas como saídas bem humoradas em milhões de posts nas redes sociais, frases como “põe um cropped e reage”, “fecha o olho e finge demência”, “bota um óculos escuro e finge que é rica” revelam o que podemos chamar de uma inabilidade contemporânea em lidar com o sofrimento.
Como canta Frejat: “…que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Parece que tudo o que incomoda é tratado como batatas quentes em mãos de pele fina.
Em carta a P.W. Martin, fundador do International Study Center of Applied Psychology, Jung não teme ser didático ao convocar o interlocutor à responsabilidade:
“Os pares de opostos costumam diminuir quando são enfrentados com seriedade. Os pares de opostos têm uma tendência natural de encontrar-se na linha do meio, mas o meio nunca é um compromisso inventado pelo intelecto e imposto aos partidos em luta. É antes o resultado do conflito que se pretende resolver. Em nenhum caso os conflitos se resolvem através de truques habilidosos ou de mentiras, mas sim pelo fato de nós os suportarmos. Eles precisam ser esquentados por assim dizer, até que a tensão fique insuportável; então os opostos se fundem aos poucos mutuamente. É uma espécie de procedimento alquímico, mas não uma escolha e decisão racionais. Sofrer faz parte imprescindível. Toda solução real só será encontrada através de sofrimento intenso. O sofrimento indica até que ponto nós somos insuportáveis a nós mesmos. Entenda-se com o seu inimigo, interior e exteriormente! Este é o problema! Esse entendimento não lhe faria mal, nem ao seu inimigo. Concordo que não é fácil encontrar a fórmula correta; mas se a encontrarmos, teremos feito uma totalidade de nós, e isto, acredito eu, é o sentido da vida humana”. (C.G. Jung, Cartas – Volume 1, pág. 246)
Muito diferente da psicologia positiva, que costuma acreditar na máxima “fake it until you make it” (finja até que você consegue) e inspirado pelas tradições filosóficas orientais, Jung propõe o mergulho na escuridão do incômodo até que ele mesmo possa se transformar em águas claras e revelar a solução.
Prática – No romance Sidarta, o prêmio Nobel de Literatura, Hermann Hesse expõe o leitor ao que pode parecer uma desconcertante lição sobre sustentar o incômodo e mais tarde, criar.
Em um momento de sua longa jornada em busca de autoconhecimento, o peregrino enxerga Kamala, cortesã pela qual se apaixona instantaneamente. E, ao que tudo indica, ela também por ele, naquele momento vestido com apenas uma tanga velha esfarrapada.
Sidarta queria aprender sobre o amor com Kamala, pediu que fosse sua amiga e mestre. Para isso, a mulher explicou a ele que precisaria ter roupas bonitas, sapatos dos melhores, muito dinheiro nos bolsos e presentes para lhe ofertar.
Por isso, o filho de brâmane convertido em samana precisaria arrumar trabalho que o pagasse bem para que, enfim, pudesse aprender a amar com Kamala.
Indicado pela mulher, Sidarta foi pedir trabalho ao comerciante Kamasvami, que foi logo perguntando o que ele sabia fazer, ao que respondeu causando estranhamento: “Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar”.
Quando questionado pelo potencial patrão para que servia jejuar, Sidarta responde sem dúvidas:
“Para muita coisa, meu caro senhor. Para quem não tiver nada que comer, o jejum será a coisa mais inteligente que se possa fazer. Se, por exemplo, Sidarta não houvesse aprendido a suportar o jejum estaria obrigado a aceitar hoje mesmo um serviço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome o forçaria a fazê-lo. Assim, porém, Sidarta pode aguardar os acontecimentos com toda calma. Não sabe o que é impaciência. Para ele não existem situações embaraçosas. Sidarta pode aguardar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir-se dela. É para isso, meu caro senhor, que serve o jejum”. (Sidarta, pág. 78)
Sidarta fala de fome, mas podemos ampliar a ideia de jejum também para outros aspectos do sofrimento humano para os quais, aprender a jejuar, pode nos livrar de mais sofrimento, nos abstendo de situações miseráveis.
Aridez – Em conversa recente, dois CEOs brasileiros lamentavam a falta de gana dos próprios filhos. Os jovens, que estudaram em algumas das melhores escolas do Brasil, estavam no momento de escolher seguir com a formação universitária no próprio país ou embarcar para uma excelente escola superior pelo mundo, com tudo pago por seus pais. Diante da falta de vontade dos rebentos maiores de idade para ambas as possibilidades ofertadas, um dos executivos encarou a frustração com a desconcertante pergunta: “Como se ensina a ter fome”?
A fome, seja ela simbólica ou literal pode ser fonte de infinitas reflexões. O alimento que quando falta causa dor, causa dor também quando existe em excesso.
As sensações viscerais do corpo são fontes de informações profundas e precisas sobre a psique humana, já que corpo é psique. Geração após geração, seja por pudor, seja por desvalorização, temos sido convidados a nos distanciar do diálogo com o corpo natural, seus fluxos e ciclos, e acreditar majoritariamente nas ideias, na razão.
As analogias e os ditos populares não são apenas jogos de palavras, mas contém o potencial da sabedoria. O sofrimento, seja ele físico ou espiritual, merece o envolvimento do ser humano por inteiro para que novas possibilidades sejam reveladas.
“Em caso de fome física, o homem precisa de comida real e, em caso de fome espiritual, precisa do conteúdo numinoso que, conforme a sua natureza, é arquetípico, tendo desde sempre representado uma revelação natural; tanto que a simbologia cristã se baseia, como todos os outros conceitos religiosos, em moldes arquetípicos que recuam até a pré-história. O caráter de totalidade original da simbologia inclui todo tipo de interesses e instintos humanos, o que garante a numinosidade do arquétipo. Por isso, deparamos, na ciência comparativa das religiões, com a associação de aspectos religioso-espirituais com aqueles da sexualidade, da fome, dos instintos de luta e poder etc. Uma fonte especialmente abundante para a simbologia religiosa é sempre aquele instinto que na época está mais em evidência, respectivamente, aquele que mais preocupa o indivíduo. Existem sociedades nas quais a fome é mais importante que a sexualidade, e outras, nas quais acontece o contrário. Por exemplo, a civilização nos incomoda menos com tabus de alimentação do que com a restrição sexual. Na sociedade moderna, esta detém até o papel de uma divindade ofendida, que indiretamente sabe impor o seu direito em todos os campos possíveis, até mesmo no campo da psicologia, onde se procura reduzir o espírito a uma repressão sexual”. (OC 10/4 § 652)
Corpo – Quando ignorado, inevitavelmente, o corpo convoca à alma para a conversa. Na busca pela integridade psíquica, o corpo pode ser grande aliado, assim como as práticas físicas. Para isso, é preciso aprender a simbolizar: a fome, a dor, o sofrimento, a excitação, o frio na barriga, o sintoma. No tapete de yoga, os desafios físicos são, antes de mais nada, desafios emocionais. O jogador de futebol que torce o joelho pode encontrar na dor a possibilidade de aprendizado. A ginasta paralisada após um acidente pode se convocada a transcender ao corpo que parecia inquebrável para seguir.
Tudo isso e infinitas outras experiências acometem o ser humano não sem sofrimento. Com a dor insuportável há também o chamado para um movimento corajoso de criação.
Em Assim falou Zaratustra, obra que imagino ter sido um dos livros de cabeceira de Jung, pela quantidade de vezes que o cita em sua Obra Completa, percorremos, página a página, a poesia possível na integração de opostos, da qual surge a criação.
“Criar — eis a grande libertação do sofrer, e o que torna a vida leve. Mas, para que haja o criador, é necessário sofrimento, e muita transformação. Sim, é preciso que haja muitos amargos morreres em vossa vida, ó criadores! Assim sereis defensores e justificadores de toda a transitoriedade. Para ser ele próprio a criança recém-nascida, o criador também deve querer ser a parturiente e a dor da parturiente”. (Assim falou Zaratustra, pág 82)
Os sofrimentos que a vida nos impõem merecem mais do que escapes rápidos e pretensamente bem humorados. Merecem mais que anestesias. Encarar o sofrimento, o medo, a raiva é parte do caminho que pode nos conduzir para um estado de inteireza. Gosto de dizer que estamos vivos, mas precisamos nos encarnar, sentir a vida na carne, a dor e o prazer. Usar o corpo, as mãos, a capacidade criativa para, como buscavam os alquimistas, tentarmos transformar chumbo em ouro.
A psicologia analítica é um convite para isso, embora possamos, à luz de todo desenvolvimento intelectual, nos limitarmos apenas aos escritos de Jung. Falar Jung não é necessariamente viver Jung. Ele nos propôs mais, realizou mais em si. Propôs o corpo, a experiência, o sofrimento, a dúvida, a conversa, arriscou-se em atitudes questionáveis, ousou na criação, na matéria, nos desenhos, nas esculturas, na torre.
“Ars requirit totum hominem” (A arte requer o ser humano inteiro), lê-se em Rosarium Philosophorum, tratado alquímico datado de 1550.
Matéria – No que pode parecer a olhos preconceituosos um desvio do caminho, motivado por aprender a arte de amar com Kamala, Sidarta trabalhou. Tornou-se hábil comerciante, comprou as roupas e sapatos necessários para estar à altura da mulher que desejava. Comprou presentes. Sidarta expôs sua ignorância e inexperiência àquela mulher para tornar-se sábio.
“Dela aprendia Sidarta que os amantes não devem separar-se após a festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração do outro; sem que ambos, sejam vencedores tanto como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente. Maravilhosas eram as horas que ele passava em companhia dessa linda e experiente artista, tornando-se sucessivamente seu discípulo, seu amante, seu amigo. Era ali, nos braços de Kamala, que residiam nessa fase da sua vida o valor e o significado da sua existência e não no escritório de Kamasvami”. (Sidarta, pág. 80)
Nem no escritório de Kamasvami, nem ao lado dos samanas louvando Buda. Era na materialidade da existência humana, para a qual se rendeu sem distração, fazendo o que precisava ser feito à beira do abismo, que os encontros com Kamala revelavam a Sidarta, naquele momento, o sentido de sua vida.
“Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar”, disse Herman Hesse, por meio de Sidarta, em 1922, indicando um caminho ainda pertinente para o ser humano contemporâneo.
Afinal, do que tanto você tenta fugir quando se distrai?
Luciana Branco – Analista em formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
JUNG, Carl Gustav. Cartas – Volume 1 2ª edição Petrópolis. Editora Vozes 2002.
_____ . Um mito moderno sobre coisas vistas do céu. Edição digital. Petrópolis. Editora Vozes 2013.
HESSE, Herman. Sidarta. Rio de Janeiro. Editora Record, 2026.
NIETZCHE, Frederich. Assim falou Zaratustra. São Paulo. Companhia das Letras, 2018.
FREJAT, Maurício Barros, Mauro Sta. Cecília. Amor pra recomeçar. Rio de Janeiro, WEA Records / Warner Music Brasil, 2001.

