Resumo: O texto que aqui consta trás uma reflexão acerca das amizades, que muitas das vezes acabam se tornando inimizades, ou, que se mantém como amizades até certo ponto, que, contudo, viram coleguismos ou até amizades que são nomeadas como falsas amizades, que muitas das vezes prejudicam, ou até mesmo atrapalham a vida, impactando negativamente os envolvidos quando não olhadas de uma maneira criativa e ampla, para ambos os lados. Num olhar através da psicologia analítica, de Carl G. Jung, podemos elaborar o que ocorre na psique das pessoas em situações como essas, que ensejam algumas suposições, acerca desse fenômeno, que muitas das vezes envolvem os nossos complexos relacionais, que estão abordados também nesse artigo, podendo dar vazão ao que simbolicamente essas relações ou não relações podem representar.
Conceitualizar a amizade é algo que se torna bastante desafiador, uma vez que cada um de nós tem uma percepção diferente desse movimento que acontece no decorrer de nossas vidas, noções que são discutidas entre as pessoas que já tiveram ou têm um amigo, para tentar se aproximar do que esse fenômeno representa, tanto em caráter emocional quanto psicológico. Além disso, as experiências passadas também podem fazer com que tenhamos impressões que são agradáveis ou desagradáveis acerca desse tema. Alguns consideram a amizade como uma necessidade humana, que se dá de maneira voluntária entre duas ou mais pessoas, onde confiança, apoio mútuo, afeto e reciprocidade se fazem presentes, o que em algum grau pode gerar algum tipo de intimidade.
O senso de pertencimento também se faz presente, de pertencer e ser pertencido, seja por um grupo ou seja por uma única pessoa, pertencer à sua rotina, pertencer aos seus pensamentos, pertencer à sua história, pertencer aos seus sentimentos, aos seus sorrisos e às suas lágrimas, podendo ser alguém que está incluso nesses eventos ou testemunha de todos esses ocorridos. Como se nós pudéssemos ser um pouco daquilo que o outro vive, sendo influenciados pelas suas histórias, valores, concepções, afirmações e princípios. Nesse quesito do compartilhar, acabamos sendo compartilhados, pois uma porção do outro acaba sendo um pouco a minha, e um pedaço meu pode acabar sendo um pouco do outro, em possíveis trocas e empréstimos das nossas próprias psicologias.
Há quem diga que ela também é pautada com base no respeito às diferenças, pois elas fazem parte e dependendo de como são vistas, podem ser até mesmo uma fonte criativa para poder se enxergar no outro e olhar para a própria vida de maneira distinta, possibilitando novos caminhos existenciais. Alguns tentam classificar a amizade, como Aristóteles, que a trouxe em três tipos, “Amizade por utilidade (baseada no benefício mútuo). Amizade por prazer (baseada na diversão e afinidades). Amizade por virtude, considerada a mais elevada, em que ambos desejam o bem um do outro pelo valor da pessoa, e não pelo que ela oferece”. Podemos entender então que ela é um processo em que se busca algo de bom, de prazeroso, de acolhedor, que gera ânimo e segurança, que visa a reciprocidade com o devido respeito, gerando assim, uma relação afetiva, que nos afeta e mobiliza.
Dito isso, podemos afirmar que todas as experiências vivenciadas pelos seres humanos acerca desse tema acabam energizando ou formando essa forma de ser com o outro, criando em nós uma ideia ou uma hipótese de trabalho, que dessa maneira, possibilite olharmos para ele como um arquétipo, termo bastante utilizado por Carl Gustav Jung.
O ser amigo muito tem sido objeto de narrativas, tanto na nossa vida cotidiana como também em livros, filmes, séries e contos.
É claro que falamos aqui de um conceito, de uma formação de pressupostos que fazem com que persigamos essas qualidades e características, a fim de termos normas e condutas que englobam esse tipo de relacionamento. Existe aqui uma idealização de como essas histórias poderiam ou deveriam ser pautadas. O que cria possibilidades e até mesmo fantasias, que podem vir a ser realizadas ou não dentro das trocas entre dois seres humanos.
A imagem coletiva que nos atravessa, dentro dessa forma relacional, também é algo que está formatando as nossas estruturas psíquicas, para que nos coloquemos diante das pessoas que nos cercam, para que atualizemos o que essa imagem representa em cada um de nós, que cria em si maneiras de se portar, agir, pensar, sentir, que faz com que tenhamos determinados tipos de comportamento perante o outro, que nos faz também criar expectativas com relação à pessoa que é objeto desse tipo de afeto, onde é criada uma dinâmica da qual acabamos impactando e sendo impactados.
Há amizades que perduram a vida toda, há amizades que são mais efêmeras, há amizades que nascem através de outras amizades, há amizades que existem somente de um dos lados da história, há amizades que nem sequer são amizades.
Hoje vamos falar um pouco dessas ditas não amizades, que muitas vezes, nos consomem, atordoam e decepcionam, ou aquelas que estão dentro de um contexto em que existe a nomeação, contudo, não se consegue fazê-la acontecer dentro desses direcionamentos que elencamos das nomeadas verdadeiras amizades, ou, sob o ponto de vista comum, do que elas podem vir a representar negativamente, o que nos dá oportunidade de nomeá-las como falsas amizades. Descrevemo-las assim, pois essas podem vir a ter toda uma roupagem pesarosa, que as coloca dentro desta categoria, contudo, elas, no fundo, ou, dentro de um processo inconsciente podem ocorrer de outras maneiras.
O que era para ser algo bom, duradouro, prazeroso, criativo, fonte de inspiração, inclusão, apoio, conversas profundas, amenidades do dia a dia, acaba virando um processo complicado, deteriorante, competitivo, pejorativo, degradante, condicionado em relações de domínio, supremacia e poder, onde há o desejo inclusive de destruir, ou de possuir o outro, fazendo disso um confronto lesivo entre seres humanos, que usam de todos os artifícios para que haja a eliminação, exclusão, submissão e até a humilhação do dito amigo.
O que era para fazer ascender e crescer, se faz para apagar, diminuir e execrar. Utiliza-se da maledicência, das más fofocas e até de falácias para prejudicar e se beneficiar em algum sentido disso. Ainda assim, vale ressaltar que o conflito é de suma importância numa amizade, pois ele é que faz ambos se desenvolverem na vida, como também pode até mesmo ser a possibilidade de fortalecer o vínculo, desde que isso seja feito com boas intenções, no intuito de desejar profundamente o bem do próximo, respeitando os seus limites e incentivando o crescimento.
Falar dos complexos, dentro da teoria Junguiana, é extremamente importante no decorrer dessas situações.
Sabemos que todos estes são carregados de energia afetiva, que se energizam a partir do arquétipo e também das experiências vividas por um determinado indivíduo, gerando assim, uma personalidade dentro da própria pessoa, que parece ter vontades e desejos próprios, visando a sua autorrealização, buscando e criando narrativas na vida presente que se assemelham àquilo que gerou essas formações psíquicas, como que criando uma forma única de existir, pautados em projeções, emoções, suposições, afirmações e verdades absolutas de si e do mundo à sua volta.
“Todo complexo dotado de energia suficiente manifesta a tendência a formar uma pequena personalidade própria. […] Em suma, comporta-se como uma personalidade parcial.” (JUNG, 2013, v. 8, §202).
Logo, não podemos deixar de dizer que dentro das relações afetivas, em especial as amizades, foco desse artigo, os complexos se fazem presentes e se interpelam de todas as maneiras, dentro dos contextos que as pessoas encontram para desenvolverem esse tipo de “lugar” relacional.
É de suma importância todo indivíduo reconhecer seus complexos, pois esses podem influenciar diretamente a forma como ele se relaciona com o mundo, como também, com seus vizinhos, colegas e amigos.
Podemos considerar que as primeiras relações, com pai, mãe, tios, primos, professores e figuras de poder, podem gerar um dos principais complexos naquela pessoa, como o paterno e materno, por exemplo. É importante observar, analisar e compreender como estes operam dentro da gente, porque eles são as primeiras impressões afetivas que possuímos acerca da relação com o outro. Reconhecer como eles operam na gente é um ato de responsabilidade com o mundo, mas principalmente consigo mesmo.
Ter relações complicadas com pais e mães é extremamente comum na vida dos seres humanos, porque eles também carregam e são carregados pelos seus complexos, que influenciam diretamente a sua relação com os filhos, logo, todas as dinâmicas e trocas afetivas complicadas, difíceis e destrutivas podem vir a formar os complexos relacionais de um indivíduo e esse projetar as imagens acerca desse complexo nas pessoas em sua vida presente, inclusive, nos ditos amigos, que podem ser assim também considerados não amigos.
Será que tivemos uma relação boa com a nossa mãe? Será que tivemos uma relação boa com o nosso pai? Será que tivemos uma relação boa com os nossos irmãos? O quanto os complexos que foram ali gerados nessas trocas estão enviesados em nossas amizades?
Seria importante olharmos se há em nós uma sensação de abandono gerada por uma atitude de algum desses indivíduos, que fizeram parte da nossa história, ou, se existe dentro da gente uma sensação de insuficiência que foi condicionada através das intervenções dessas pessoas, ou, uma noção de inferioridade causada por palavras, gestos, olhares, silêncios que produziram uma experiência psíquica, que formaram redes de afeto internas, que se ligam e se associam, formando a imago parental, gerando visões acerca das nossas relações existentes em nosso psiquismo até os dias de hoje e, que buscam a compensação, resolução ou atualização desses conteúdos que foram introjetados em nossas vidas psicológicas, funcionando de maneira automática, sendo então, determinantes que, como vimos, nos impulsionam em direção a relações e situações que são pertinentes a essas imagens e, que se associam a condições semelhantes, como que um originador de realidades, que vão se formando em nossas vidas corriqueiras, que buscam mais daquilo que foi aprendido por essas forças.
Não podemos deixar de dizer que as amizades serão pautadas nessas imagens, que remetem a pais, mães, irmãos, entre outros, pois elas são deslocadas e reproduzidas nas nossas relações interpessoais na sociedade no futuro.
Portanto, o desejo de controlar ou de agradar e até superar os pais e familiares pode se apresentar nas relações de amizades, bem como as frustrações por não conseguir alcançar esses desejos, que muitas das vezes vêm potencializadas pela necessidade de amar e ser amado, de pertencer e de ser pertencido pelo grupo ou pela família, pela necessidade de validação e apropriação de uma formação da imagem que constituímos de nós mesmos. “A primeira forma de complexo tinha que ser, portanto, um complexo parental, pois os pais são a primeira realidade com a qual a criança pode entrar em conflito” (JUNG, 1991, § 992).
Sendo assim, você já fez a reflexão do que você viveu com seus pais ou aqueles que representaram esse papel? Como as suas interações com eles formaram a sua noção do que é se relacionar? Será que hoje não é projetado nos seus amigos algo que está inconsciente?
Até mesmo sendo possível estar identificado com essas emoções ou imagens e, você agir de acordo com o que elas incitam, como que tomando como verdade absoluta a sua opinião sobre seus amigos, ou sobre as amizades em linha geral, sobre relacionamentos, donde desafetos e mágoas tomem proporções que transbordam a realidade vivida. Pois, por não ter essas forças conscientizadas, elas atuam livremente, criando sensações, pensamentos e sentimentos que se fazem distantes do que as pessoas que convivem com você realmente apresentam, ou gostariam de apresentar .
Ideias como: “Ninguém gosta de verdade de mim”, “Ninguém gosta de falar comigo”, “As pessoas são más”, “Preciso me defender, pois as pessoas vão querer me usar”, “Sou um abandonado”, “Sou menos que os outros”, podem vir a perambular pela psique do indivíduo. Logo, esse reage a essas ideias de maneira automática, inclusive, a toda e qualquer relação de troca, de acordo com essas alegações e, assim, atua como se todos à sua volta fossem fazer valê-las, perdendo a capacidade de discernir e atuar de outra forma.
Jung comenta que “a inconsciência do complexo ajuda a assimilar inclusive o eu, resultando daí uma modificação momentânea e inconsciente da personalidade, chamada identificação com o complexo.” (JUNG, 2011, p. 45).
A grande questão aqui é que muitas vezes, as pessoas não elaboram esses conteúdos psíquicos parentais, não analisam as suas próprias crenças a respeito de si e do mundo, logo, ficam mesmo alienadas de outras possibilidades de si, da relação que elas estabelecem com as outras pessoas, mas também com outras personalidades (complexos), que estão dentro delas, não estabelecem diálogos acerca dos seus incômodos, das suas desavenças consigo próprias nem com aquilo que traz desconforto nas suas interações sociais, por exemplo. É muito comum vermos acusações perante os colegas ou os amigos, onde há uma crítica ferrenha contra o outro, fazendo do outro o seu maior algoz, sem ao menos refletir o que está por detrás daqueles sentimentos pesarosos, daqueles conflitos, ou daquele pensamento ruminante acerca de quem se fala.
Afirmações absolutas contra a figura dos seus não amigos se fazem aos montes, quando assim tomados por uma ideia única acerca da sua existência em relação ao outro e de si mesmo, não dando alargamento do campo de visão acerca do tema, refutando toda e qualquer objeção, ficando o próprio sujeito dominado por essas opiniões, convicto de sua narrativa, esse deixa de ver qual é a parte dele que cabe nessas desavenças e qual a parte do outro que corrobora para o tal mal-estar na relação, como que sendo subjugado por si próprio e suas crenças e, por que não pelos próprios complexos?
Jung comenta que “A liberdade do eu cessa onde começa a esfera dos complexos, pois estes são potências psíquicas cuja natureza mais profunda ainda não foi alcançada.” (JUNG, 2013, p. 51).
Como vimos, temos um misto de movimentos psíquicos de projeções e identificações com esses complexos, onde o outro ora é um problema, ou ora eu sou o problema, sendo as imagos negativas dos familiares colocadas em tudo, inclusive em quem nos rodeia. Noções absolutas de automenosprezo, autoabandono, autoexclusão, autossabotagem, autodestruição, autocomiseração são típicas de identificações com esse arranjo afetivo, como que gerando sentimentos horríveis acerca de si mesmo perante os que estão à sua volta, atuando isso de maneira livre e desprovida de consciência, ou da consciência da própria consciência que está autômata.
Vimos então, que a tendência em casos como esses é de se colocar em relações que culminam nessas ideias, sendo os complexos catalizadores dessas predisposições, procurando-os se realizar em sua unilateralidade, criando situações que façam com que eles ganhem cada vez mais força na vida psicológica daquele indivíduo, fazendo-os crescer, conforme cenários que se assemelham vão ocorrendo no dia a dia, fazendo jus à sua imagem primordial, balizadas através de figuras importantes do seu passado. Criando assim, uma cadeia de associações na mente desse sujeito que é sequestrado por essas memórias afetivas, que vão reduzindo cada vez mais um fato a uma única versão, se “alimentando” disso, para gerar cada vez mais ocorrências para reforçar uma ideia primária, que gera um reforço também de um sentimento primário, que gera emoções correlatas a estes, que retroalimentam esse sistema, num ciclo sem fim.
Este termo exprime o fato de que a situação exterior desencadeia um processo psíquico que consiste na aglutinação e na atualização de determinados conteúdos. […] A constelação é um processo automático que ninguém pode deter por própria vontade. Esses conteúdos constelados são determinados complexos que possuem energia específica própria. (JUNG, 2013, p. 585).
Portanto, podemos inferir que é de suma importância que, para estabelecer relações amistosas, tenhamos um diálogo com esses complexos, uma conversa franca conosco, lembrar de como foi que eles surgiram na vida psíquica, de que maneira eles atuam, como é que eles se comportam, como é que eles nos fazem agir perante as relações, quais são as nossas percepções acerca das trocas que desenvolvemos com as pessoas em nosso cotidiano, mesmo que isso doa ou encontremos partes desagradáveis sobre nós mesmos.
Refutarmos nossas nuances mais imorais ou inadequadas ao mundo da performance e da perfeição exigida, ou, criarmos ideias de grandiosidade acerca de nós perante os outros, para amenizar a atuação de um complexo de inferioridade, menosprezo, ou abandono só irá potencializá-lo ainda mais, pois nessa circunstância, quanto mais nego algo de um lado, eu o afirmo na mesma proporção de outro, gerando assim, um distanciamento do que deveria ser aproximado, acolhido e compreendido.
Negar essas entidades é como falsear a relação com estes, não os integrando, não olhando para eles com o devido cuidado, donde impossibilitamos inclusive a capacidade de aceitá-los em nossas vidas psicológicas, diminuindo a capacidade de alcançar uma inteireza de nossas várias possibilidades vivenciais.
Sabemos que esse é um trabalho árduo e contínuo, no entanto, extremamente necessário, dito isso, será que quando não o fazemos criamos falsas relações conosco mesmos? Será que falsa não é a nossa percepção acerca da vida e do outro por não permitirmos que conscientizemos os complexos que nos possuem? Ou, será que falsa é a nossa noção sobre nossos desafetos relacionais, que contém só um lado da moeda? Logo, será que as amizades são mesmo falsas, ou, nós é que falseamos as nossas relações internas e por consequência as externas? Será que somos nossos amigos ou amigos de nossos considerados “inimigos” internos mediante uma visão moralista de nós mesmos?
Nós somos seres plurais, não somente um fenômeno fixo, morto, temos algo em nós bastante vivo, que é móvel e diverso, bom e mau e, que justamente por isso, nos convida a bater papo com todas essas facetas, onde através de um processo analítico, podemos alcançar todas essas potências, assim como Waldemar M. Filho comenta em um dos seus artigos, “Isso irá contribuir para a conscientização da nossa condição plural e diversa e a existência dos nossos aspectos sombrios, fazendo-nos perceber que o perfeito e o absolutamente bom é uma ilusão, porque temos o lado oposto, antes dessa conscientização projetado no outro.” (MAGALDI FILHO, 2018).
Não isentamos as outras pessoas ao nosso redor de suas contribuições aos mal-entendidos, aos desacordos, desajustes, ou problemas numa relação.
O ponto é que, talvez, temos uma possibilidade aqui de compreender de que maneira o outro nos toca, nos afeta e nos mobiliza, podendo a interação ser uma via de compreensão de si mesmo, para que possamos compreender o que circula dentro de nós, que faz eu me atrair pelas mesmas situações, para os mesmos tipos de pessoas, para as mesmas circunstâncias.
Podemos enxergar aqui todas as brigas, discussões, conflitos com o mundo externo como sintomas, que podem vir a nos trazer maior compreensão da nossa jornada, começamos assim a perceber um desejo velado de trazer determinados tipos de pessoas para perto da gente, com roupagens muito parecidas com as pessoas de nosso convívio do nosso passado. De maneira paradoxal, temos as vivências de uma experiência psíquica análoga ao que passamos, como também, de criar percepções novas através dessas, ampliando simbolicamente o que aquela relação ruim quer dizer à respeito da vida em nosso íntimo. Talvez, seja interessante começarmos a pensar que os nossos piores amigos, são os nossos melhores inimigos.
Jung ainda enseja que é importante saber suportar a si mesmo, para que possamos amar o próximo, logo, abarcar nossas nuances sombrias, dissecar os complexos que parecem inadequados ou amargos, formados em relações que foram a nós importantes em outros tempos, pode ser considerado um ato de autoamor, integrando, incluindo, cuidando e alargando a nossa apercepção sobre elas, podendo assim, reproduzir isso em nossas relações afetivas que estão presentes em nossas rotinas diárias.
Compreender que o outro, fora de nós é tão desastroso como o outro que está dentro da gente, que o outro que está fora se sente inferior, assim como o outro dentro da gente, que o outro que se sente superior no nosso ciclo de amizades para compensar a sua inferioridade, também existe dentro de nossa vida psíquica, que o outro que está no nosso meio age, e nos difama com medo de descobrirem seus defeitos, também existe em nosso mundo interior, da vontade de alguém de te enfraquecer e te possuir para não ser abandonado, assim como também temos o receio de ser esquecido, do desejo do outro eliminar as nossas vidas pois, quer destruir algo dentro dele que não aceita, assim como queremos deteriorar as más percepções que temos de nós mesmos, de como o outro confirma nossos desejos sombrios, até mesmo de nos destruirmos para nos reconstruirmos, nos excluirmos para nos incluirmos, nos inferiorizarmos para nos humanizarmos, nos abandonarmos para nos acolhermos, agindo estes de maneiras confusas e até inaceitáveis.
“Se você consegue suportar a si mesmo, então, talvez seja capaz de amar outra pessoa; caso contrário, isso é uma mera desculpa, apenas uma mentira.” (JUNG, 1988, p. 699). O que reforça nossa concepção de que podemos manifestar falsas relações conosco, mas principalmente com o outro, foco desse artigo.
Parece então, ser importante começarmos a refletir amistosamente sobre essas propostas elencadas nesse texto, a fim de encontrarmos cada vez mais união entre nossas oposições internas, colaboração entre as partes que são antagônicas para gerar uma nova via de afeto, imagem e troca, no que carregamos dentro de nós, do que carregamos dos outros, do que distribuímos e retribuímos, gerando assim novos símbolos, que dão vazão a novos sentidos às nossas interações sociais, criando assim, não somente amizades, contudo, também novas amizades, mesmo naquelas velhas, mesmo nas não amizades, todo dia, no novo e no de novo.
Gabriel Yamaya – Membro Analista em formação IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP
Vídeo de apresentação do artigo:
Referências:
JUNG, C. G. A natureza da psique. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 8/2).
JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. Tradução de Araceli Elman e Edgar Orth. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 18/1).
JUNG, C. G. Nietzsche’s Zarathustra: Notes of the Seminar Given in 1934–1939. Edited by James L. Jarrett. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1988. v. 2.
MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado. São Paulo: Eleva Cultural, 2018.

