RESUMO: Este artigo aborda a temática da maternidade na contemporaneidade, fazendo uma análise crítica e reflexiva do contexto sociocultural das imposições atribuídas às mulheres-mães, conforme a perspectiva da psicologia de Carl Gustav Jung. O intuito desse trabalho visa a desmistificar a romantização da maternidade, bem como a culpabilização da mulher e trazer à tona as muitas nuances que se abatem sobre a maternidade real.
Vamos falar sobre a maternidade real?
Sim, é isso mesmo! Temos a maternidade real e a maternidade idealizada.
E a que se deve essa diferença?
Pois é, vivemos em uma sociedade que romantiza a maternidade. Muitas mulheres se veem tentando a todo custo atingir e cumprir o que se espera de uma dita boa-mãe. Nesse contexto social, as mulheres são instruídas a acreditarem de fato nesse vislumbre do ser uma mãe ideal. Isso por consequência de nossa cultura que embutiu e perpetua por gerações um “modelo ideal” de maternidade.
O arquétipo da mãe é universal, em qualquer cultura, tempo ou lugar que se refira à figura materna, ele é ativado por imediato. Porém, cada um de nós tem uma imagem de mãe específica, mas em geral todos sabem o que é uma mãe.
Carl Gustav Jung, após suas observações empíricas, definiu arquétipo como uma fôrma, como um molde, onde são assentadas e moldadas as experiências humanas.
Com efeito não temos acesso aos arquétipos diretamente, o que se torna consciente para nós é a imagem arquetípica; a forma resultante do molde e assim, segundo ele:
“Mãe” é um arquétipo que indica origem, natureza, o procriador passivo (logo, matéria, substância) e, portanto, a natureza material, o ventre (útero) e as funções vegetativas e por conseguinte também o inconsciente, o instinto e o natural, a coisa fisiológica, o corpo no qual habitamos ou somos contidos. “Mãe”, enquanto vaso, continente oco (e também ventre), que gesta e nutre, exprime igualmente as bases da consciência. Ligado ao estar dentro ou contido, temos o escuro, o noturno, o angustioso (angusto = estreito). Com estes dados, estou reproduzindo uma parte essencial da versão mitológica e histórico linguística do conceito de mãe, ou do conceito do Yin da filosofia chinesa. (JUNG, OC 16/2, § 344)
Há que se lembrar também que os arquétipos são ambivalentes, e desse modo, potencialmente positivos e negativos, uma vez que existem no inconsciente coletivo não somente a imagem da boa mãe, como também a da mãe terrível.
A mulher sempre foi vista em nossa cultura como uma figura associada à procriação. Sua função essencial seria procriar; reproduzir a espécie, produzir mão de obra de trabalho nos tempos do Brasil agrário e hoje ainda, em alguma medida, a mão de obra urbana para os grandes meios de produção e prestações de serviços.
No entanto, na sociedade contemporânea, a mulher não desempenha apenas a maternidade, a maioria das mulheres que são mães, também cumprem muitos outros papeis sociais, os quais, no que tange a estrutura psíquica, foi chamado por Jung de persona e que:
“designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar.” (JUNG, OC 7/2, § 245)
A maioria das mulheres na contemporaneidade faz parte do mercado de trabalho, são responsáveis pela maior parte dos afazeres domésticos (grande parte delas, de todos os afazeres) e a depender da configuração familiar, ainda cuidam dos pais idosos – a chamada geração sanduíche – que tem filhos pequenos e pais idosos por conta da expectativa de vida do brasileiro que aumentou e também por causa da maternidade mais tardia da mulher moderna.
Essa maternidade, que acontece um pouco mais tarde atualmente, deve-se a alguns fatores como o acesso a métodos contraceptivos, maior escolarização e dedicação ao estabelecimento de uma carreira profissional.
Um outro aspecto importante que precisamos mencionar, é a perspectiva de que atualmente os lares brasileiros constituídos e mantidos por mães solo vêm crescendo notoriamente. Além do mais, há que se observar que um outro tipo de dinâmica também existe, que são as mães-solo-casadas, quando todas ou a grande parte das demandas da criança se concentram sob a responsabilidade da mãe. Ou seja, há uma solidão materna, uma sobrecarga da mulher-mãe em nossa cultura.
Ademais as exigências se mantêm. Nota-se isso especificamente no mercado de trabalho, haja vista espera-se que a mulher trabalhe e produza como se não tivesse filhos e que seja mãe dedicada a maternidade como se não trabalhasse.
Nesse sentido, são fortemente julgadas se acaso esse filho não se encaixar no modelo de filho ideal pré-concebido socialmente. A culpa é da mãe! Ouve-se, na maioria das vezes essa expressão no cotidiano. Menos vezes é dito a culpa é dos pais e menos vezes ainda se pergunta: onde estava o pai?
É uma conta que não fecha!
No trabalho, em geral, as equipes gestoras de liderança não quer saber se a mãe passou uma noite sem dormir por conta das demandas dos filhos, quer desempenho e resultados. Ao mesmo tempo, julga-se a maternidade destas mulheres, quando não performam o modelo idealizado da boa-mãe; que deve ser sempre dedicada, sempre disponível e sempre angelical. E deste modo, nossa sociedade segue tratando os indivíduos, e neste caso mais específico, mães, como se fossem máquinas.
E, embora seja óbvio, há que se dizer, que dada a sua humanidade, muitas vezes essa mãe moderna vai se exceder, vai errar, vai perder a paciência, vai deixar de cumprir algumas regras e demandas esperadas, devido à tamanha exaustão.
Isso sem contar que além do papel de mãe, tantas outras exigências também são feitas em conjunto à mulher, como, por exemplo, a imposição em relação à estética e padrões de beleza pressupostos atualmente. Padrões que por sinal, mudam constantemente e que são inalcançáveis, diga-se de passagem.
Mas, a quem interessa tudo isso?
Essa lógica atende aos interesses do capital e não passa de mais uma estratégia patriarcal e mercadológica para manter mulheres ocupadas, controladas e exaustas; pois assim, não sobra tempo para serem criativas e impede-se que sejam autênticas e livres. E a energia psíquica, em um quantum muito considerável, fica, deste modo, voltada para a adaptação e exigências externas, em um movimento que Jung chamou de progressão.
E em que momento essa mulher poderá olhar para si mesma?
À mulher está atrelada a figura do cuidador. Ela cuida de todo mundo; cuida dos filhos, cuida da casa, cuida das relações em que se encontra, cuida dos doentes, mas e quem cuida dela? E será que ela mesma se cuida? Ou será que a noção de autocuidado, autoestima e autocompaixão feminina também não foram bem construídas na cultura brasileira?
Maternidade é ambiguidade.
É um constante “Credo! Que delícia!” Entretanto sustentar esse paradoxo não é ensinado e nem autorizado a ser expressado verbalmente. A mãe que ousar externar seus sentimentos de descontentamento, na maior parte das vezes, terá sua fala rechaçada. O julgamento é quase que imediato.
Vivemos em uma sociedade onde a persona aceita da mãe, é a persona da mãe encantada, que tece elogios e demonstra satisfação com a maternidade. Atualmente, começamos a ver pequenos movimentos se iniciando no sentido de debater a romantização da maternidade e a exaustação, sobrecarga e apagamento de partes da mulher ao desempenhar o papel materno.
E a culpa materna?
Muito já se ouviu o ditado popular que diz: nasce uma mãe, nasce uma culpa. Mas essa expressão popular é dita muitas vezes no sentido de naturalizar, ainda que de forma inconsciente, o fato de que mães sentem culpa. A cobrança sobre as mães é tão grande e tão enraizada no imaginário coletivo que elas sentem culpa no automático. Sente culpa por tudo. Sentem culpa até de coisas que não estão no seu controle. Fazem muito pelos filhos, se esforçam tanto, muitas vezes se anulam e a sensação é de que ainda não foi o suficiente.
A romantização da maternidade produz a culpa materna, produz a culpabilização da mulher. O sistema patriarcal e neoliberal foi tão “eficiente” que chegou a um ponto em que ninguém precisa cobrá-las, elas mesmo se cobram. É de certa dificuldade mensurar o quão cruel com as mulheres isso é!
As mulheres modernas tentam conciliar os vários pilares que compõem a vida na contemporaneidade, seguem exercendo as várias personas. Porém seguem sobrecarregadas, uma vez que a sociedade do desempenho, como diz Byung-Chul Han, nos vende uma imagem idealizada da mulher moderna e empoderada que “dá conta de tudo” e que tem que performar em todas as áreas da vida como; carreira profissional, relacionamento amoroso, interação social, maternidade, aparentar sempre jovem, ter o corpo magro e etc…
E, caso haja alguma suposta imperfeição no resultado em comparação à idealização subjetivamente imposta, é porque houve alguma falha pessoal e daí o número crescente de adoecimento mental, que na verdade é oriundo de uma busca incessante de encaixe de padrões pré-estabelecidos, pois não há um questionamento em relação ao sistema que engendra tudo isso, de modo que o suposto problema não é visto como de ordem coletiva e sim atribuído ao indivíduo. E Carl Jung já dizia que:
“A vida em sua plenitude não precisa ser perfeita, e sim completa. Isto supõe os ‘espinhos na carne’, a aceitação dos defeitos, sem os quais não há progresso, nem ascensão.” (JUNG, OC12, § 208)
Além de tudo isso, as mulheres-mães ainda se perguntam como as suas antepassadas conseguiam dar conta de um número muito maior de filhos, cuidar dos afazeres domésticos, servir ao marido e algumas ainda cuidavam da agricultura familiar. Todavia a verdade é que essas mulheres não “davam conta”, essas mulheres não viviam suas escolhas e desejos, nem desenvolviam suas potencialidades, elas vivam a subjugação e o apagamento do feminino.
Há mulheres que não querem ser mães.
Observa-se também um movimento recente de mulheres declarando terem optado por não exercerem a maternidade, de não desejarem ser mães e novamente, há reações imediatas diversas. Tais mulheres ouvem críticas como: quando estiver velha irá se arrepender de não ter tido filho ou algo como: não será uma mulher totalmente realizada. Assim vinculam inteireza, integridade e realização feminina à função materna.
Esse movimento vem crescendo devido a uma maior conscientização da mulher moderna, observação da sobrecarga; atribuída em maior parte à mulher com a chegada de uma criança bem como a sensação de perda da liberdade e autonomia, ou também por um desejo, genuíno e legitimo, de maternar a própria vida, um projeto, uma missão e etc…
E as mães arrependidas?
Se uma mulher que reclama da carga pesada da maternidade já sofre julgamentos, imagina dizer que se arrependem de ter tido filhos. Algumas mães seguem emudecidas por uma opressão invisível que atrela as mulheres a serem mães e, pior ainda, a gostarem de desempenhar a função materna. Muitas não conseguem sequer verbalizar o que sentem, tamanho o peso da reprovação que receberão. Muitas mulheres levam essa questão por toda a vida. Algumas delas utilizam como via para o alívio grupos de bate-papo na internet, onde podem falar sobre o arrependimento sem se identificarem, por medo de serem rotuladas como desumanas.
Há que se diferenciar o amor pelos filhos do gostar de desempenhar o papel destinado às mães, uma vez que são ações completamente diferentes, embora não soe bem e não seja bem recebido socialmente no momento.
Ainda que seja um tema sensível, há sim mulheres que de fato se arrependem de terem se tornado mães, na medida em que a decisão foi tomada sob ótica da maternidade romantizada e por uma maternidade compulsória que opera de modo subentendido.
Tais mulheres sentiram que tiveram suas vidas roubadas, sua individualidade e liberdade perdidas com a chegada do filho, embora soubessem previamente de toda abdicação e exigências que a criação de uma criança requer. Contudo não se trata de egoísmo, tampouco de falta de amor e irresponsabilidade, mas esses tipos de sentimentos precisam ser acolhidos, pois eles existem, muito embora não sejam o desejado socialmente.
E quanto aos filhos?
Antes de qualquer coisa, é importante lembrar, que nos primórdios, a responsabilidade, cuidados e ensinamento das crianças; mesmo que tivessem suas mães, eram de toda a aldeia, de todo o clã, de toda uma tribo. Até bem pouco tempo, antes da entrada das mulheres no mercado de trabalho, elas ficavam por conta dos filhos e do lar, contando muitas vezes, com uma rede de apoio composta por outras mulheres cuidadoras que a auxiliavam, como suas mães, sogras, uma irmã, tias, vizinhas e outras. O que atualmente praticamente não acontece mais. A rede de apoio é cada vez mais reduzida, e isso quando ela existe.
Observa-se também um movimento, ainda que a passos lentos, de apoio e presença do Pai na modernidade, mas ainda é a exceção e não a regra. E mesmo quando isso acontece, a maior carga ainda recai sobre a mulher. E estes pais costumam ser elogiados socialmente por fazerem o mínimo e geralmente, a maioria desses homens também acreditam estarem sendo diferenciados e incríveis.
Somado a isso, conforme mencionado anteriormente, as atribuições da mulher moderna aumentaram, o que resulta em sobrecarga, exaustão e inviabilidade de algumas perspectivas da vida.
E de fato, o que uma criança realmente precisa é de pais realizados; de pais felizes; uma vez que os filhos são receptáculos e estão inconscientemente captando tudo o que acontece na dinâmica familiar. Pois a melhor forma de educar é sendo um modelo de pessoa íntegra, inteira, realizada e humana. Não importando, inclusive, como se dá essa configuração familiar; seja mãe solo, pais casados, pais separados e etc… Desde que esses pais/cuidadores estejam vivendo suas vidas com significado e propósito, pois essa é a maior herança que pode ser deixada.
“Nada exerce maior influência psíquica sobre o meio ambiente da pessoa, sobretudo das crianças, do que a vida não vivida dos pais.” (JUNG, OC 15, §4)
E no final das contas, no que tange a temática da maternidade, o que um filho de fato necessita é de uma mãe real, de uma mãe possível, de uma mãe verdadeiramente humana, que carrega virtudes e imperfeições, luz e sombra e assim, de uma maneira ou de outra, aprenderá, perceberá, receberá e experimentará sua humanidade por meio da nutrição desta mãe.
Laiana Neves – Membro Analista em formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP
Vídeo apresentação:
Referências Bibliográficas:
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2015.
JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. OC.12. Petrópolis: Vozes, 2012.
JUNG, C. G. O espírito na arte e na ciência. OC.15 Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, C. G. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência.OC.16/2 Petrópolis: Vozes, 2012.

