Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino.
C.G. JUNG
Resumo: Fazendo alusão ao Mito de Er, contado por Platão no livro A República, em que cada pessoa entra no mundo ao ser chamada e recebe um daimon particular que acompanhará essa alma, guiando-a e intuindo-a, pois quando aqui chegamos esquecemos do que combinamos, o que tem norteado a sua vida? Qual o seu propósito? O que o inspira e o motiva?
Você pode dizer que se esqueceu desse chamado, ou que ele se perdeu diante das demandas da vida, ou pode tentar evitá-lo com força hercúlea, mas a verdade é que ele sempre vai manifestar-se, o daimon não desaparece.
Daimon era o termo usado pelos antigos gregos quando se referiam à força espiritual ou entidade guardiã, um anjo da guarda, que guiava o indivíduo por toda sua vida, e Hillman (2025, p. 13) descreve o daimon como “um guia espiritual que nos conecta à nossa vocação mais profunda, ajudando-nos a perceber aquilo que é essencial para a realização do nosso potencial”.
Para Hillman, a vida é uma jornada com foco na busca do sentido e do significado e o daimon é a nossa bússola nesse caminho, que nos orienta e nos faz lembrar da nossa verdadeira natureza e que, muitas vezes, nos tira da zona de conforto, para que atendamos ao chamado da nossa alma, fazendo com que nossa vida se torne mais autêntica, com mais propósito e nos transformemos em quem, realmente, fomos destinados a ser.
Essa visão corrobora com a teoria do fruto do carvalho, “segundo a qual cada pessoa tem uma singularidade que demanda ser vivida e que já existe mesmo antes de poder ser vivida” (HILLMAN, 2025, p. 28).
Hillman diz que as implicações práticas ocorrem assim:
(a) Reconhecer o chamado como o fato primordial da existência humana; (b) alinhar a vida com esse chamado; (c) ter o bom senso de perceber que os acidentes, inclusive o coração partido e os choques naturais herdados pelo corpo, pertencem ao padrão da imagem, são necessários a ela e ajudam a consumá-la). (HILLMAN, 2025, p. 30)
E aqui começa o desafio: “reconhecer o chamado”, que é algo individual, genuíno, que nos diferencia ou nos destaca das demais pessoas, e isso, muitas vezes, é assustador, pois vivemos em uma sociedade que normatiza, que rotula, que classifica, exclui e banaliza quem está fora do padrão social tido como normal.
Muitas pessoas deixam de atender, ou alinhar sua vida a esse chamado por diversas razões: desde a influência castradora dos pais, a pobreza que aniquila as forças, a falta de fé, os diagnósticos médicos que rotulam essa característica como doença e até o simples comodismo na zona de conforto. (Cf. HILLMAN, 2025, p. 259)
Aceitar o chamado implica também em resignar-se às adversidades e assumir as consequências que esse direcionamento do daimon nos conduz.
O daimon começa a dar seus indícios na infância, é nessa época que ele indica o caminho, o que muitas vezes é classificado de pirraça ou teimosia é o próprio daimon em ação em resposta a esse chamado.
Toda criança é dotada e já nasce com uma série de dados, de dons que lhes são peculiares e que se mostram de formas peculiares, muitas vezes inapropriadas e causando sofrimento.
HILLMAN, 2025, p. 35
Essa teoria explica a infinidade de casos de crianças, que na mais tenra idade apresentam determinadas habilidades inatas ou características de personalidade extremamente desenvolvidas, o que nos leva a certeza de que as pessoas não chegam aqui nesse mundo como “tábulas rasas”, elas trazem consigo, “dentro de uma bolota” (alma), o fruto do carvalho, que podemos nomear como o Mito do Significado, o propósito de suas vidas, e que têm como protetor dessa missão, o daimon, que irá lembrá-las desse compromisso e redirecioná-las, quando elas desviarem do percurso.
Hillman relata diversas histórias de celebridades que, desde a infância, apresentam características que, independentemente das condições culturais, sociais, econômicas e afetivas, se mostravam predeterminadas a algo muito maior.
Esse é o caso de Josephine Baker. Nascida em 3 de junho de 1906, no Hospital St. Louis Social Evil, nos Estados Unidos, pelo nome do hospital, poder-se-ia dizer que nada de bom poderia vir de lá, mas Freda J. McDonald, registraria sua passagem por esse mundo como exemplo do fruto que cumpriu o desejo do Self.
Aqui já encontramos uma força interior muito intensa, pois muitas pessoas se deixam sucumbir por um sistema de crenças depreciativo e limitante decorrente de sua origem ou situação financeira, acreditando estarem fadadas a um destino previsível e pré-determinado.
Josephine teve uma infância de extrema pobreza, trabalhava em casa de família desde criança para sobreviver. A comida era escassa, ao contrário das pulgas, que eram muitas e compartilhadas com seu cachorro, já que ambos dividiam o chão para dormir.
Ela vivia apanhando de uma de suas patroas, que a deixava constantemente nua, porque as roupas eram caras demais. (Cf. HILLMAN, 2025, 77). Talvez seja por esse motivo, que Josephine quando iniciou sua carreira artística, se sentia tão à vontade em se apresentar quase nua e despertar tanto fascínio na plateia.
Conta-se que quando criança, Josephine montava um palco no porão com caixotes e que batia nas crianças quando elas não prestavam atenção em sua apresentação. Aqui podemos perceber o daimon dando seus primeiros indícios.
Aos 19 anos ela se torna conhecida pelo mundo no Teatro Champs-Élysées, em Paris, e deste momento em diante, o sucesso, a fortuna e a luxúria, passam a ser suas companheiras de jornada, mas como foi dito inicialmente, o daimon não desaparece.
Em 1939 estoura a Segunda Guerra Mundial e Josephine aos 32 anos, tem a rota de sua vida redirecionada pelo daimon novamente: ela quer servir à França, país que adotou e se torna espiã, arriscando sua vida levando informações escondidas nas partituras musicais, até Portugal.
Josephine por ser negra, muitas vezes foi expulsa de teatros e quase sofreu o risco de deportação e execução, mas isso não a intimidou e nem a fez desistir de seu ideal.
Podemos perceber que Josephine realmente estava empenhada em seguir sua vocação, sem se importar com as consequências que pudessem advir de suas ações. Ela estava sendo guiada pelo seu propósito.
A vocação (do latim vocatus) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma. Não escolhemos realmente uma vocação; na verdade é ela que nos escolhe. Nossa única escolha é o modo como respondemos. (HOLLIS, 1995, p. 101)
No Marrocos onde tinha bom relacionamento com a família dos Governantes, resgatou judeus da repressão e após a libertação de Paris, arrecadou centenas de quilos de alimentos para auxiliar os necessitados, devido a essas ações, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas e a Medalha da Resistência, além de receber do presidente Charles de Gaulle, o grau de Cavaleiro da Legião de Honra.
O daimon também direcionou Josephine a auxiliar na luta contra o racismo e pela emancipação dos negros nos Estados Unidos, onde apoiou o Movimento dos Direitos Civis de Martin Luther King.
Seu último feito foi empregar todo seu dinheiro para manter um imóvel abrigando onze crianças de diversos países e etnias, que ela adotou.
Em 1975, dias antes de morrer, falida, sem teto e envelhecida, Josephine fez seu último show em Paris, onde foi ovacionada pelo público. (Cf. HILLMAN, 2025, p. 79)
Josephine Baker cumpriu com o Mito do seu Significado e deixou registrado ao mundo seu propósito de servir ao daimon, buscando aliviar o sofrimento e permitir que outras pessoas tivessem possibilidade de viver e não apenas sobreviver.
Josephine poderia continuar em sua vida de estrelado, com a fama, riqueza e a luxúria características, mas seu caráter a impulsionou a fazer algo mais relevante, que pudesse servir à coletividade e a uma finalidade maior e o daimon a conduziu nesse sentido.
Essa visão do coletivo corrobora com uma característica do conceito de Processo de Individuação desenvolvido por Jung (2015), em que o indivíduo não é direcionado ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso. “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (JUNG, 2015, p. 64).
Algumas pessoas poderão argumentar que não possuem talento ou um dom especial para atender ao chamado, mas em relação à essa questão, Hillman nos diz que não devemos confundir um dom especial com o chamado.
O talento é apenas uma parte da imagem; muitos nascem com talento para música, matemática e mecânica, mas apenas quando esse talento contribui para a imagem como um todo e é levado à frente pelo caráter é que reconhecemos a excepcionalidade. Muitos são chamados, poucos são escolhidos, muitos tem talento, poucos têm o caráter que consegue realizar o talento. O caráter é o mistério individual. (HILLMAN, 2025, p. 256)
O caráter é essa força interna, que faz com que o indivíduo seja incapaz de realizar algo diferente daquilo que ele foi destinado a fazer (fruto do carvalho), e quando o indivíduo está alinhado a esse propósito, independentemente da atividade que exerça, ele executará de forma peculiar e integral, pois estará sendo guiado pelo seu daimon.
Conforme Hillman, “A teoria do carvalho defende que todos somos escolhidos. A própria questão da individualidade presume que há um fruto do carvalho único que caracteriza cada pessoa.”
O grande problema é que a sociedade atual patologiza o chamado, medicalizando o sintoma, fazendo com que o indivíduo se mantenha anestesiado e preso ao status quo, afastando-se desta maneira do destino orientado pelo daimon.
Conforme Hillman (2025, p. 54), a nossa cultura classifica o sintoma como algo “ruim”, mas, para onde ele vai quando é eliminado? Ele realmente desaparece? O que estava tentando expressar? “Há ‘algo mais’ no sintoma além de sua negatividade antissocial, disfuncional e obstaculizante.”
Por mais paradoxal que isso possa soar, os sintomas devem ser encarados como presentes, pois são convites para o indivíduo reajustar a rota da sua vida, como uma exigência do Si-Mesmo. “O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer” (HOLLIS, 1995, p. 20).
Essa é uma característica marcante da “Crise da Meia Idade”, onde o indivíduo se vê impelido a encontrar respostas a dilemas existenciais e enfrentar situações muitas vezes evitadas.
As crenças que nos sustentaram na primeira fase da vida se tornam ineficazes. Ideais e ídolos antes venerados se transformam como “poeira ao vento”. Jung (2013, p. 784) diz que: “Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer”.
Iniciamos essa reflexão com o Mito de Er, que afirma que a cada um de nós recebe um daimon para nos auxiliar nessa jornada, você já conseguiu identificar esse seu guia pessoal?
Você tem seguido as orientações dadas por ele?
Seu propósito de vida está alinhado ao objetivo que seu daimon está lhe propondo, ou você ainda coloca seu “destino” nas mãos de um guia externo baseado nos interesses e opiniões da nossa sociedade capitalista, midiática e consumista?
Boa reflexão!
Cristiane dos Santos – Analista Junguiana em formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Vídeo de apresentação:
Referências:
HILLMAN, James. O código da alma: em busca da essência e do chamado. São Paulo: ed. Goya, 2025.
HOLLIS, James. A Passagem do Meio: da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: ed. Paulus, 1995.
JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______ O Eu e o Inconsciente.27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.


